Engano.

O cheiro de grama pisoteada por um bando de adolescentes suados e raivosos, entra pelas minhas narinas. É muito esquisito para mim estar aqui nesse lugar barulhento e movimentado, sentir este cheiro, e de uma forma tao suave ele me fazer bem. Ouço um apito ensurdecedor, e só nesse momento volto a prestar atenção no jogo. Antônio, o zagueiro, e melhor jogador do time, diga-se de passagem, se prepara para cobrar um pênalti. Todo mundo se levanta da pequena arquibancada, na esperança de que Toni fizesse aquele gol. Era o ultimo jogo do campeonato da escola, todos estavam apreensivos, pois o jogo não saia do zero a zero desde o primeiro tempo. Eu já estava cansado daquele lugar, não suportava mais, só estava ali para ver Toni jogar. Era meu melhor amigo, só o via jogar na rua de casa com os moleques. Seu esforço para que eu comparecesse nesse jogo deu certo. Bom, chegou o momento, ele dá dois ou três passos para trás, respira fundo, consigo ver o suor escorrer em sua face, parece que sou o único que o repara tanto, ele é lindo, um verdadeiro atleta juvenil. Meu coração acelerou junto com ele, o chute foi certeiro, a bola passou pelo lado esquerdo do goleiro, e o goleiro caiu para o lado direito. A algazarra do povo me surpreendeu e me contagiou. Me pego sorrindo e dando alguns pulinhos tímidos. Lanço meu olhar para o campo a procura do herói do jogo. Ele corre com uma felicidade de dar gosto, parece que iria explodir de alegria. E eu ali parado, a espera de um sorriso direcionado a mim. Mendigando um tchausinho se quer. Ele é solto pelos outros jogadores que o erguia, inesperadamente surge correndo em minha direção. No seu semblante o lindo sorriso reina. Seu olhar fica mais brilhante que o sol daquela tarde. Seu olhar, seu sorriso e seus gestos são direcionados a mim. Eu retribui com os mesmos gestos, mas minha vontade era pular aquela grade e lhe dar um abraço bem apertado. Um grito estérico vindo de sima da arquibancada me assusta, viro rápido para ver. Era Luiza, com suas mini roupas, parecia que elas iriam rasgar a qualquer momento de tanto que ela pulava freneticamente. É nesse momento que aquele lugar não me cabia mais. Percebo que Luiza sorri e grita desesperada, não de forma solta, mas direcionados a Toni. E vejo que ele retribui de forma carinhosa. Bom, caiu a ficha, pego minha mochila e saio sem olhar para trás, acreditando que os sorrisos de Toni tinham sido para mim. Sou muito sético para acreditar nisso, mas vou tentar. Parece que Toni manda muito bem em tudo que faz, enganou o goleiro direitinho e me enganou também.