Filete

Nilton Cabral
Aug 31, 2018 · 2 min read
Atey Ghailanhttps://www.artstation.com/artwork/waDlg

Ter que se adaptar a uma narrativa proposta.

É isso que destrói por dentro, porque é inalcançável. Existe toda uma “cultura do fracasso”, vamos por assim, em que você vai perdendo pontos de valor num sistema controlador. O papel do gênero, né. Daí se você não é normal — isto é — magro o suficiente, levemente atlético, um Adão latino, fudeu. Se você tem pelos de mais, fudeu. Se você for sensível ou inseguro, fudeu. Se não gosta de carros, fudeu. Não joga futebol? Alienígena. Se você mostrar fraqueza é explorado nela e forçado a se conformar com tudo. Com o desrespeito, consigo e com outros, mulheres, gays, sua mente fechada e controladora, porque todo mundo fora daquele filete antiético de lixo comportamental é um inimigo ou uma presa.

E ainda falam da caricatura “entre homem é só dar umas porrada e pronto, tá tudo certo”; “Deixa pra lá porra, esquece, viadinho”; é essa merda o tempo todo. Me recuso. Me recuso a xingar alguém como cumprimento, essa masturbação esquizofrênica. Enfim. Daí você sai da máquina da juventude, completamente despreparado, num estado de vida e ataque, de dor e sequestro, adquire vícios, como só sabe resolver na violência, resolve na violência e agride quem ama, quem odeia, como aqueles que não pertencem a esse desgraçado filete antiético de lixo comportamental. Daí dá de cara com o mundo real, inadiável, incapaz de perdão ou justiça, incapacitante, sufocante e muitas vezes, morre com uma arma fumegando na mão e qualquer que seja o valor em reais que custaram sua vida.

Os homens fabricam homens pra morrer. Isso é fato. Mas tem um porém aí. Nessa massa existem uma fatia, uma porcentagem, uma relevância de gente criada com um apoio por baixo. Bons exemplos, verdadeiro afeto, respeito e gentileza. Apenas perdidos, tentando se explicar, tentando fazer sentido do mundo, tentando achar alguma coisa pra valer a pena. E arrisco ainda: é semelhante pra mulher, existe todo um outro sistema baseado em outros valores e punições, com outras dinâmicas de humilhação, muito mais cruéis. Ainda tendo que lidar com essa outra tragédia, a masculina, que é irmã e também assassina. Então somando, é uma porra de uma pilha de merda fervilhante fadada ao abismo. Basta então transformarmos isso ato por ato, passo por passo, perdão por perdão, ruptura por ruptura.

Né?

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