A utopia do “consumo consciente”.

Uma polêmica. Necessária.
Ontem falei algumas vezes sobre o AliExpress e hoje me questionaram sobre o trabalho escravo por trás desse site de vendas. Eu estava esperando por essa reflexão, que até demorou a vir. Queria muito falar sobre e enfim chegou a hora. Abordarei esse tema de uma forma muito pessoal e espero que vocês compreendam que essa não é uma tentativa de amenizar o injustificável, de “tirar o corpo fora”, mas que vejam como exemplo de uma outra realidade, pois tá todo mundo errado nessa história, o que não significa que há “culpados”.
Há dois anos (ou mais) eu não entrava no AliExpress, assim como dificilmente acessava algum site de compras pela internet, apenas porque não confio. Meu namorado, que não tem rede social, é o incrível oposto: adora comprar pela internet e entende a coisa toda como uma “caça ao tesouro”. Eu não, porque detesto surpresas com aparência negativa: o produto pode vir errado, talvez quebrado (o que, na minha cabeça, dificulta a troca); se for uma roupa, provavelmente não caberá, etc.
Mas ele gosta de me dar presentes e sempre aproveitava as promoções da Dafiti.
Meses atrás, ele insistiu que queria me presentear com uma “bolsa chique”. Discordei, porque né? Salvador. E nem tenho onde andar com uma bolsa assim. Mas entramos no site da Dafiti e escolhemos algumas. Não chegamos a comprar porque as mais bonitas e “chiques” passavam dos cem reais.
O que também passou foi o tempo: entrei nesse curso de Enfermagem e descobri que preciso comprar um mundo de coisas (a burra aqui não tava preparada). Alguns investimentos já foram feitos, como o aparelho de medir pressão, os livros e a encomenda do jaleco. Tudo isso aí passou de mil reais, embora o valor dos livros tenha sido parcelado. Ainda tem a mensalidade e, agora, o diretor exige que compremos os módulos, risos. Em breve — e já tô correndo atrás — precisarei de peças brancas de vestuário, para o meu período de estágio.
Então, guardem a seguinte informação: eu, Nina, não tenho trabalho fixo. Trabalho como freela. Recebo ajuda, mas meus pais, por exemplo, não podem me sustentar financeiramente. Não moro com eles e ainda pago aluguel. Estou nesse curso para tentar entrar no mercado de trabalho novamente, em uma área que emprega bastante.
E daí que nem bolsa direito eu tenho. Não uma que corresponda ao que preciso carregar para o curso e ao que precisarei levar para o estágio — que não está tão longe de acontecer (final do ano começa). Desisti da “bolsa chique”, sugestão do namorado, e fui olhar novamente o site da Dafiti em busca de alguma bolsa ou mochila que possa satisfazer as minhas necessidades. Tudo continuava ainda muito caro. Mas muito caro mesmo. Passou de cinquenta reais, para as minhas condições, já tá custando os olhos da cara. Para mim, significa uma ida ao mercado.
Há uns dois meses, quando eu ainda não estava no curso, mamãe me deu um banho de loja. Porque ela quis e eu não recusei. A loja escolhida foi a Renner, pois ela tem cartão lá. Peguei uma bolsa pequena, dessas que só cabem a carteira e as chaves. Uma besteira que custou cinquenta reais porque estava na promoção. As bolsas grandes e bonitas chegavam a duzentos.
Pronto. E assim voltei para o “tio Ali”. Fui movida pela curiosidade, pois a demora de entrega do produto é uma das muitas coisas que me distanciam daquilo ali. Despretensiosamente, pesquisei as mochilas. Achei uma, rolou sentimento, sabia que seria aquela. Cinquenta reais, um preço inimaginável no Brasil, para uma peça grande, bordada e, segundo os consumidores que efetuaram a compra, resistente. Essa mochila estava entre as primeiras páginas de pesquisa. Ainda não comprei porque, adivinha?, dinheiro só entra mês que vem.
Mesmo assim, continuei olhando outras mochilas. Daí cansei, fui ver as bolsas.
Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que as bolsas que vendem baratinho no AliExpress são as mesmíssimas exaltadas pelo triplo do valor original em lojas como Dafiti e Renner.
Sério. As mesmas, sem tirar nem pôr.
Eu só não tenho print porque não planejei esse texto. Mas você pode fazer a comparação; navegue no site da Dafiti, na página das bolsas. Escolha algumas, abra numa página separada, navegue mais um pouco e feche. Depois, faça o mesmo no AliExpress. Esses sites (ou o navegados, o algorítimo, sei lá) salvam as nossas pesquisas, de modo que você fica revendo aqueles mesmos produtos em diferentes sites, por diferentes preços. Pois é.
E compare o absurdo.
Muitas lojas brasileiras de departamento encomendam produtos chineses feitos através de trabalho escravo (supondo que a maioria seja, pois realmente não tenho certeza), costuram sua etiqueta, vendem aqui e muita gente que acha que está consumindo conscientemente não tem ciência de nada.
Outros já sabem disso, no entanto.
A única blogueira que eu gosto, por exemplo, é a Julia Petit, e ela sempre alerta para o consumo consciente, que é um discurso lindo e ótimo quando você tem condições financeiras para arcar com ele, o que não é nem o meu caso e nem de boa parte da população, classe C, dependendo das Riachuelo’s da vida.
E eu nem classe C sou mais, já que uma lojinha de shopping é uma realidade distante para mim. Sério.
Se você ganha bem e pode comprar de artesãos: vá em frente, espalhe essa ideia entre os seus, faça a diferença, diminua os danos e reconheça a arte de pessoas que, muitas vezes, fazem trabalhos exclusivos. Se eu tivesse como, estaria nessa.
Mas não tenho.
AliExpress foi minha última opção, pois até as lojas que eu considerava baratas aqui no Brasil, hoje, não cabem no meu bolso. Talvez eu compre aquela linda mochila branca, com bordados, resistente, bem estruturada e custando pouco, sabendo que, provavelmente, uma criança usou suas mãos e se colocou em risco em troca de algumas moedas ou um de prato de comida. O coração dói sim.
Antes, eu não tinha consciência disso. Meu armário com roupas compradas no primeiro piso não pensava em trabalho escravo. E nunca tive como escapar desse círculo de maldade e vaidade, moldado e “oferecido” muito antes de eu nascer.
Agora, duas informações aleatórias, que eu não sei se acrescentam alguma coisa:
- 1. Trabalhei na Zara, como vendedora. Sabendo do trabalho escravo, óbvio, pois todo ano uma nova notícia surge envolvendo a Zara e esse tema. Acho que a Zara fica mais no topo dessa questão por ser uma “loja de departamento” que “vende para ricos”. A Zara SEMPRE fica no terceiro piso do shopping center. A estrutura do shopping centerverticalizado visa hierarquias sociais. O debate surge porque “como assim essas pessoas que PODEM ter um consumo consciente ainda compram nessa loja?”. E eu sabia de tudo isso quando coloquei currículo em lojas de pelo menos quatro shoppings daqui, um currículo bem preparado, pois tenho experiência na área. A única loja que me chamou foi a Zara. Dizem que a Zara contrata por indicação — disso eu não sabia. Descobri depois que entrei, porque “impressionei” a gerente com a minha atitude: um dia, num shopping específico, cinco grandes lojas ficaram sem iluminação por problemas internos/técnicos. Uma delas foi a Zara. Não me acanhei. Os funcionários estavam reunidos na frente da loja escura e sem clientes, sentados em bancos, conversando. Cumprimentei-os e perguntei se poderia deixar um currículo. Uma mulher, que só depois também descobri que era a gerente, o pegou, separou e me chamou para a entrevista, meses depois. Deixei de ir porque a empresa é constantemente acusada de trabalho escravo? Não. Eu precisava trabalhar. Quatro shoppings. Mais de trinta lojas em cada. Antes da saída da Dilma, país em crise, todo mundo perdendo emprego, só uma loja me chamou. O que você faria se estivesse no meu lugar?
- 2. Eu moro no Centro e o que mais temos aqui são lojas de chineses, vendendo de tudo. Quando me separei e voltei a morar com os meus pais, uma dessas lojas ficava perto da casa deles. Eu passava em frente e as roupas eram lindas, leves, aparentemente confortáveis. Essa loja ficava na Baixa dos Sapateiros, uma espécie de 25 de Março, só que em Salvador, para quem quiser comparar. Comentei com a minha mãe e, um dia, passando perto, entramos. Foi aí que vimos que os donos eram chineses, falavam pouco o português. E as funcionárias: todas brasileiras com cara de fome. Sabe cara de fome MESMO? Aquela dificuldade em entender o que o cliente desejava? E mau hálito evidente de uma pessoa que passou horas sem se alimentar? Pois é. Me pergunto até hoje se aquelas mulheres tinham horário de descanso e almoço. E os chineses, os donos, não só não negociavam como queriam passar a perna nos clientes, parcelando no cartão com o acréscimo de dois reais em cada peça, com a clássica desculpa (bem brasileira) de “pagar a maquininha”. Tal acréscimo é ilegal.
Então, o cenário é esse. Capitalismo é uma desgraça praticamente impossível de “burlar”, para a maioria. Você quer comprar de uma costureira, mas não tem como bancar esse investimento. A opção por “brusinhas” mais ou menos aceitáveis — porque sim, ainda tem isso, ser socialmente aceita a partir da roupa que você usa -, se limita ao primeiro piso do shopping e tudo ao redor tem a sombra do trabalho escravo. E se você for na Avenida 7 de Setembro ou na Baixa dos Sapateiros, as opções são de trabalho escravo chinês e brasileiro, só muda o patrão, explorador de nação explorada.
É um círculo vicioso que eu poderia resumir com a comparação que sempre faço quanto a indústria que diz ser vegana, por exemplo, o que é uma falácia: “cosméticos não-testados em animais”, cujos componentes vieram de laboratórios que testam em animais. Mais uma produção interessada em alcançar público. Talvez o verdadeiro vegano seja aquele que vive no meio do mato e nem computador usa, pois também a nossa parafernália tecnológica foi testada. Entendo, porém, quando a pessoa escolhe ser vegana e pode manter esse estilo de vida com o intuito de reduzir danos. Mas uma andorinha só não faz verão.
Nem vou entrar nesse mérito dos veganos, pois já cansei de repetir: é privilégio. Não existe mercado orgânico na periferia de Salvador, por exemplo. Pode procurar.
Em suma, no discurso e entre os seus, é lindo e pode funcionar. Para a maioria, na qual estou inserida, não. E não é por falta de vontade (para quem se conscientiza sobre). Muitos de nós não têm como pagar mais caro para fazer do mundo um lugar menos nocivo. Somos levados a consumir aquilo que é mais barato porque não há outra opção.
A culpa não é exatamente das pessoas. Não essas, vítimas de um sistema que as esmaga e com poucas armas, sendo o poder aquisitivo a maior de todas.
Essa crônica teve o objetivo de dialogar, mas realmente não chega a uma solução prática, me desculpem.
