As incríveis mulheres que somos.

Você sabe que está diante de um filme todo especial por causa do elenco, três das atrizes de que mais gosto: Annette Bening, Greta Gerwig e Elle Fanning. Três mulheres competentes na atuação e interpretando personagens fortes em diferentes gerações. Ambientada nos Estados Unidos dos anos 70, 20th Century Women traça um mapa sobre a história do país com toda a sua cultura e mudanças significativas, além da incompreensão das mesmas após duas guerras.

Annette é Dorothea, nascida nos anos 20, que casou e teve um filho “tarde demais” para a sua idade. Aos 15 anos, Jamie (Lucas Jade Zumann), o elo entre todos os personagens, é um estranho para a sua mãe e mais ainda para o seu pai, com quem teve pouco contato após o divórcio. A relação entre mãe e filho já foi de cumplicidade, pois Dorothea não é uma mulher comum, ela entende e permite que Jamie tenha suas próprias experiências de vida e que ele seja visto como uma pessoa e não apenas como uma criança, um ser dependente e vulnerável. A melhor amiga de Jamie é Julie (Elle Fanning), uma menina de dezessete anos, problemática e incompreendida por sua mãe, terapeuta que atende adolescentes, mas não sabe lidar com a própria filha, o que distanciou as duas. O afeto de Dorothea e Jamie é diferente do relacionamento entre Julie e sua família. Mesmo assim, Julie se interessa por psicanálise e tenta compreender a si mesma vivenciando toda a liberdade que sua época e sua idade propõem. E, dentro da casa de Dorothea, vive também a descolada Abbie, fotógrafa interpretada por uma Greta Gerwig de cabelos curtos e vermelhos, que alugou um quarto e trabalha para o jornal local. Abbie é interessada na cena punk de sua época e no movimento feminista, mas, recentemente, enfrentou o trauma de uma doença devastadora. E a rotina desses personagens ainda conta com a presença do charmoso porém “fechado” William (Billy Crudup), espécie de “faz-tudo”: conserta carros e casas, mas também é hábil e sensível ao fazer cerâmica e procura um amor que o compreenda e respeite suas limitações.
20th Century Women é uma comédia dramática sobre mulheres, porém democrática: a história é narrada de diferentes pontos de vista e um personagem apresenta o outro, imagina seu futuro, reflete sobre sua época. Um filme sobre gerações que contempla todas as idades e, por isso, não é difícil se identificar. Dorothea é a mãe ou a mulher de meia-idade que quero ser, Julie é a adolescente que fui e Abbie é a jovem de vinte e poucos anos que estou sendo. Todos os personagens foram muito bem moldados, o que não me surpreende vindo de Mike Mills, o diretor, que é casado com a incrível Miranda July, artista extraordinária: escritora, atriz e também cineasta. Mills se inspirou em sua própria mãe para criar Dorothea, o que torna o filme, segundo ele, um tanto quanto autobiográfico. 20th Century Women, com suas cores e iluminação vivas, que não escondem marcas de expressão das personagens e uma trilha sonora que cabe em cada cena, além do roteiro cativante, dos trechos literários e de cenários preenchidos por conversas profundas e cotidianas (os limites entre amor e amizade na cama do quarto de um adolescente, o sexo e a idade na cozinha entre xícaras de café), já é fácil um de meus filmes prediletos e que merece ser assistido sempre. Todos os anseios da juventude até a velhice estão ali, não importa em qual ano você esteja.
Infelizmente, talvez não muitas pessoas ouçam falar dele, o filme cai fácil numa categoria hipster que acaba por limitar seu público. Mas é uma obra de arte ambiciosa e que sabe fluir. Provavelmente é um dos títulos mais que essenciais sobre amadurecimento.
