Das lembranças recentes:

Na semana em que nos conhecemos, o namorado e eu estávamos no café da manhã de um hotel. Ao ver os pratos empilhados, ele pegou o primeiro e me deu. Segurei, peguei o segundo prato, entreguei a ele e puxei o terceiro para mim. Naturalmente veio um comentário inoportuno:

- Meu ex-marido me ensinou a nunca pegar o primeiro prato, ele pode estar sujo.

Namorado, que tinha tudo para me repreender naquele momento, ele que sente raiva de todos os homens que me machucaram, emendou:

- Sabia que nós vivemos compartilhando com os amores do presente as lições dos amores do passado?

Em seguida, ele argumentou com um exemplo proustiano que não vou lembrar agora.

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Em Paraty, eu lhe dei as meias do ex-marido de presente.

Acho que comprei aquelas meias para o ex-marido, quando estávamos casados. Ele aceitou, mas depois as devolveu para mim, argumentando não ter gostado. Então eu passei a usá-las, pois gosto de meias masculinas.

São verdes, com um losango vermelho e uns traços em azul-marinho.

Hoje o namorado me enviou uma foto usando as meias.

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Namorado e eu, quando estabelecemos uma conversa, começamos a bocejar. Ele diz que não é tédio, é tranquilidade. Diz que sente a mesma coisa quando visita a sua mãe, se sente tão leve e à vontade, que boceja.

Quando eu e o Caio nos conhecemos no aeroporto, devo ter dormido por uns dez minutos, com a cabeça afundada na mesa da praça de alimentação e ele na minha frente, segurando as minhas mãos.

Não era tédio, nem cansaço. Era tranquilidade.