“Dear White People”, uma série jovem e democrática sobre racismo para ampliar esse debate.

Aviso: o texto a seguir apenas expressa uma opinião. Caso o conteúdo do meu parecer lhe seja ofensivo, por favor, me informe, aponte e vamos debater sobre, pois a intenção não é outra, além de indicar uma boa produção sobre um tema essencial — mas, eu sou humana, eu tô aprendendo e algo pode ter passado despercebido. Obrigada.

Tinha essa série, Skins, britânica, que todos me recomendavam assistir. Mas a verdade é que não consegui terminar nem a primeira temporada. Apesar de ser cheia de personagens marcantes, as situações daqueles jovens pareciam muito fora da minha realidade e eu não captava o propósito da série. Mostrar “jovens se divertindo e sofrendo consequências” não me convencia como uma ideia original e nem promissora a longo prazo. Se continuou só nisso, até me surpreende as sete temporadas. Pois é, nem tudo é unanimidade. Agora, também, tivemos 13 Reasons Why e a galera debateu suicídio até a exaustão, o que é ótimo para um assunto tão tabu. Eu não assisti, mas li muitas resenhas até perceber que o tema da série e sua condução abalariam meu psicológico, mas teve uma provocação interessante, levantada por alguns: quem disse ter gostado de 13 Reasons Why se enxergou em um dos porquês? Como algum ou alguns dos porquês? Pois me pergunto se, para uma pessoa branca que viu Dear White People, ela se enxergou em muitas das situações de racismo? Se enxergou como algoz, como racista mesmo, melhor dizendo? Porque a série é sobre isso.

Dear White People tem um clima semelhante a Skins, porque cada episódio apresenta um personagem diferente (alguns se repetem como protagonistas de outros episódios também) e seus dramas pessoais em meio a um clima social hostil. O ambiente é uma universidade predominantemente branca e um grupo de alunos negros apontando racismos dos velados aos escancarados, tendo, inicialmente, um programa de rádio como porta-voz, e o nome desse programa, liderado por Samantha White, é o título da série, que começa com estudantes negros invadindo uma “festa” de Halloween promovida por brancos fazendo “blackface” — significa “fantasiar-se” de pessoa negra. E pessoas negras não são fantasia. Aqui no Brasil, anualmente e no período do carnaval, nos deparamos com a mesma situação. A última, por exemplo, foi quando a cantora Daniela Mercury subiu no trio, em Salvador, “prestando homenagem” ao feminismo negro, ideia criticada exatamente pelas “homenageadas”. Anualmente martela-se sobre o mesmo tema e parece não adiantar, nem mesmo quando pessoas como a Daniela se inserem na cultura negra e afirmam conhecê-la. Dear White People ilustra exemplos como esse porque, muitas vezes, só desenhando para que entendam.

Fiquei MUITO ansiosa por essa série, dada a manifestação nos Estados Unidos de boicote a Netflix, pois os brancos, a partir de um teaser, se “ofenderam” com um conteúdo de pouco mais de trinta segundos. Alguns disseram que cancelariam suas assinaturas caso a série fosse exibida. Como essa gente fazia para passar vergonha antes da internet, eu não sei, mas brancos criticando e se ofendendo foi uma das melhores publicidades que me fizeram ter vontade de assisti-la. Há um filme que inspirou a série, mas ainda não consegui vê-lo. Porém, de fato, Dear White People é mais do que se espera, embora, nos primeiros episódios, eu tenha achado que os temas “individuais” tenham sido tratados muito por cima e talvez até excessivamente estereotipados em seus personagens, ainda que haja franqueza na abordagem. Mas percebi que o pouco tempo e essa impressão deixam quem assiste com ainda mais vontade de pesquisar sobre, então, até o quarto episódio, a série apenas apresenta-os mesmo. Também notei — e nisso fiquei contente comigo -, que muitos dos assuntos conheci através de textos de militantes ativos na internet, com os quais diariamente aprendo. Logo, imagino que, apesar de uma abordagem eficaz, para pessoas dentro da militância, talvez Dear White People não impressione tanto; talvez, até mesmo, seja considerada uma série “fraca”, o que não me parece diminuir a influência cultural que ela possa vir a ter no meio social. E se muitas pessoas debaterem-na, ainda mais pessoas brancas, já que é uma série bastante didática e com linguagem jovem, significa que o clima e seus temas funcionaram bem.

E esses temas são bem representados por seus diferentes personagens. Temos a garota forte e porta-voz de uma luta, que não se sente intimidada pelos que tentam diminui-la — pelo contrário, tudo é combustível para lidar com objetividade e sarcasmo frente as ofensas. Temos o tímido rapaz que não se enturma direito, mas escreve muito bem, graças ao seu dom de observar as pessoas e situações ao redor; porém, ele também sente dúvidas quanto a própria orientação sexual. Temos a garota negra que já passou por poucas e boas durante a infância e cresce tentando se impor entre racistas que julgam de onde ela veio e qual sua classe social a partir da cor de sua pele, mas ainda sofrendo uma crise de identidade sobre o seu posicionamento político e ativista na faculdade, que implica em seu comportamento pessoal e em sua estética. Tem o rapaz que escreve poesias e ninguém sabe, mas essa se torna a rota de fuga que o conforta quando o racismo lhe atinge da pior maneira. Temos o filho do reitor, símbolo de liderança estudantil, porque é presidente do grêmio, mas não consegue dialogar com o pai e apenas obedece ordens que vão contra seu interesse e de muitos dos alunos que representa. Talvez o mais caricato dos personagens seja o rapaz queniano; e o mais “sem noção” é o moço cristão que, para tudo, tem “a palavra do Senhor” na ponta da língua. E temos até o garoto branco que namora uma garota negra, é solidário com as pautas do movimento, porém, se sente um peixe fora d’água, com medo de dizer o que pensa diante dos amigos dela, encontrando-se em campo minado e concordando com tudo, sem que esses conflitos internos e desconfortáveis o tornem um vilão — muito pelo contrário.

Mas a série começa a engatar lá para o quinto episódio, que termina com uma cena angustiante e desesperadora, visando provocar empatia, independente da cor da sua pele, gênero, orientação sexual ou posição social. Na minha cabeça, martelavam as perguntas: e se eu estivesse no lugar da vítima? E se fosse eu no lugar do algoz? E se fosse uma pessoa amiga? Ou um desconhecido? A partir daí, a série só melhora e atinge o telespectador não de maneira agressiva (conforme ~certos brancos~ esperam), mas reflexiva.

Dear White People, não se iludam, é uma obra democrática, é pra todo mundo aprender junto, rir de si mesmo e chocar-se também — sem constrangimentos, mas com consciência e perspectiva de mudança. Além da temática essencial DESDE SEMPRE, mas talvez só agora sendo abordada amplamente (no sentido de que é uma série para o público da internet e que causou polêmica quando anunciada), a condução é muito boa, com trilha sonora interessante, boa estética, bom humor, ótimo roteiro (notem bem os discursos e as referências) e cenários bonitos demais para uma faculdade em que sempre imaginamos “bagunça” ou austeridade (outros seriados com esse tipo de ambiente mostram isso), mas essa é uma bagunça que dialoga com personalidades distintas. E que personalidades! São personagens muito ricos e fortes, tanto que nem sei se dá para eleger um favorito. Uma série sobre os tempos da faculdade, com temáticas sérias e protagonistas negros. Estava na hora. Percebo que, em produções com cenários e propostas semelhantes, os negros, muitas vezes (e quando tem), nem são “amigos” dos protagonistas — sempre brancos dentro dos padrões -, onde negros são posicionados apenas como figurantes, para mascarar um racismo evidente. Só pra citar um exemplo que já mencionei em textos anteriores: The OA, também da Netflix, conta com cerca de dez protagonistas e NENHUM é negro.

Quanto a Dear White People, para finalizar: dá pra assistir em um fim de semana, porque te prende mesmo. Consegui terminar em um dia e nem me senti cansada. Esse é o tipo de novela que também merece muitas temporadas, é uma série promissora, cujo tema e seus exemplos não se esgotam — infelizmente. Mas é isso, que seja um novo elemento cultural, que se fale muito, porque é necessário.