Dia Nacional dos Embustes.

Ilustrações de David Plunkert.

Antes que o dia termine, hoje é Dia Nacional do Escritor. Para você, homem ou DIVA que faz da sua arte algo mais relevante (e por ela é reconhecido ou reconhecida) do que a ideia de tornar-se celebridade: parabéns.

Aos embustes; a quem faz cosplay de autor morto que se revira no túmulo pois, se vivo estivesse, é certo que morreria de constrangimento; aos misóginos que acham que fazem literatura fodona e devem ter o pau pequeno (tô falando a linguagem de vocês); aos “publiquei seis livros, tente fazer melhor”, como se quantidade significasse qualidade (diquinha: não), que já levaram nove tiros e não morreram, mas não aguentam uma crítica sequer do leitor comum, a não ser que você também seja autor com seis livros ou mais, de editora que você despreza (mas queria fazer parte do catálogo) e que faça resenhas para jornais renomados (e doutorado na Alemanha é um diferencial); a quem acha que caçar polêmica em rede social é fazer literatura (risos) e a quem consegue fazer malabarismo e ser tudo isso junto como se mérito fosse — um recadinho do mestre, que provavelmente está acima de vocês, Ray Bradbury, no ensaio “O Zen e a Arte da Escrita”, presente no livro homônimo:

“É uma mentira escrever desse modo, bem como ser recompensado pelo dinheiro no mercado comercial. É uma mentira escrever desse modo, bem como ser recompensado pela fama oferecida a vocês por algum grupo semiliterato nas gazetas intelectuais.
Preciso dizer quão cheias até a borda estão as publicações literárias de rapazes e moças que se enganam a si mesmos com a ideia de que estão criando algo, quando, na verdade, o que todos estão fazendo é imitar as volutas e floreios de Virginia Woolf, William Faulkner ou Jack Kerouac?
(…)
O mentiroso avant-garde ludibria a si mesmo ao esperar que seja lembrado por sua mentira pedante. O mentiroso comercial também, em seu próprio escopo, engana a si mesmo com a ideia de que, se está blefando, é apenas porque o mundo lá fora é dissimulado; afinal, todo mundo faz isso.
(…)
Ouvimos muito sobre blefar para o mercado comercial, mas pouco sobre blefar para as panelinhas literárias. Ambas as abordagens, no final das contas, são caminhos infelizes para um escritor seguir neste mundo. Ninguém se lembra, ninguém desenvolve, ninguém discute uma história enganosa, seja ela um diminuendo de Hemingway ou um terceiro tempo de Elinor Glyn.
Qual é a maior recompensa que um escritor pode ter? Não é o dia em que alguém corre até ele, o rosto queimando com honestidade, os olhos em brasa de admiração e declara: ‘Sua nova história é ótima, realmente maravilhosa!”?
Então, e apenas então, escrever vale a pena.
De repente, a pompa dos caprichos intelectuais vira poeira. (…)
O mais insensível dos escritores comerciais adora esse momento. O mais artificial dos escritores literários vive por esse momento.”

Então, queridos: nunca é tarde pra se reciclar e que tiro, né? A quem se sentiu ofendido e sei que vai acordar amanhã já se identificando em ~indiretas~ sem sequer ter sido mencionado: o choro é livre e meu riso escancarado.