Loretta

Quando vocês problematizam “A Bela e a Fera”, eu lembro daqueles livros de “psicologia nos contos de fadas”, que visam demonizar histórias de séculos passados, com todo um tratado bem argumentado sobre como elas são prejudiciais às nossas crianças. Em certo nível, não estão errados, embora alguns apelem para o lado mais creepypasta da coisa. Eu cresci lendo os irmãos Grimm, as histórias de Andersen e acompanhando todas as adaptações possíveis. Meus filmes de época favoritos são contos de fadas e, nem por isso, hoje sou uma tapada que acredita em príncipe encantado quando eu mesma quero montar no cavalo branco. Meu filme de contos de fadas predileto, por exemplo, é o Para Sempre Cinderella, em que a Drew Barrymore é uma plebeia que lia Thomas Morus, dava uma surra no melhor amigo, se sujava na lama e teve Leonardo da Vinci como fada madrinha para o baile de um principezinho mimado e imaturo — ela merecia alguém melhor.

Além disso, contos de fadas estão aí para serem ressignificados e acho as versões feministas extremamente válidas. Em Valente, por exemplo, Merida é uma ruivinha guerreira, uma arqueira. A Rapunzel de Enrolados quer ver o mundo lá fora. Em Malévola, a bruxa nem sempre foi malvada e nem todo conto de fadas precisa girar em torno do amor de um homem por uma mulher. Estou falando apenas dos filmes mais recentes porque eles são da Disney e sabem o que também é da Disney?A Bela e a Fera” — que é um filme totalmente fiel, pelo que eu soube, ao desenho animado de anos atrás. É um filme, ou seja, para o público daquela época, é um filme-nostalgia. Então, se poupem.

Pois bem. Eu fui criada na base dos contos de fadas e abrangi a minha perspectiva às princesas da vida real, embora a carga de sofrimento em suas vidas tenha sido bem maior do que as princesas tratadas como enfeites em histórias criadas ou adaptadas por homens do século XVIII. Na vida real, a princesa casa, mas não vive exatamente “feliz para sempre” — ela logo precisa encomendar um herdeiro, participar de todas as convenções sociais, se preocupar em não constranger a família real: tudo um porre maquiado de perfeição. A monarquia precisa ser divina, nunca pode errar. Ainda bem que, aos poucos, esse contexto vai sendo destruído e, daqui até o fim do século, provavelmente, até as pessoas reais dos contos de fadas tornar-se-ão lendas.

E daí que, na minha infância, a TV Cultura exibia o Teatro dos Contos de Fadas, todo sábado, às quatro e meia da tarde. O Faerie Tale Theatre foi criado nos Estados Unidos pela atriz Shelley Duvall, na década de 1980. Durou seis temporadas e, em cada episódio, era apresentado um conto de fadas diferente.

(Tipo de coisa que deveria ter durado para sempre na televisão brasileira, repetindo infinitamente, como Chaves e A Usurpadora.)

O Teatro dos Contos de Fadas não era pouca merda, não. Teve episódios dirigidos por Coppola pai e Tim Burton. Outros, protagonizados por Susan Sarandon, Robin Williams, Leonard Nimoy, Matthew Broderick, Christopher Reeve e até Mick Jagger.

Mas, um dia, a série deixou de ser exibida, o que coincidiu com o fim da minha infância, ainda bem, de modo que nem sofri tanto. No início desse ano, quando eu ainda morava com os meus pais, minha mãe avisou que a TV Cultura tinha voltado a exibir a série. Nem deu tempo de enlouquecer positivamente, pois logo descobri que ela havia se enganado. A que passa na televisão, hoje, recebe o título de Melhores Contos de Grimm e Andersen e tudo que eu sei é que uma série alemã coincidentemente também com seis temporadas, super produzida e bastante bonita, apesar de ter uns roteirozinhos medíocres entre outros nos quais fica impossível não chorar (o conto da menina que vende fósforos é cruel, né?). Também é exibida aos sábados e quase no mesmo horário de Teatro dos Contos de Fadas.

Recentemente, por acaso, depois de ter assistido a terrível trilogia Sissi no YouTube, o site acabou me levando para um canal que dispõe de todos os episódios do Teatro dos Contos de Fadas. Aí sim enlouqueci, naquela sensação rara de quando a nossa infância “volta”. Mas só hoje pude sentar para começar pelo último episódio, que também é um dos meus favoritos dessa série: “As Princesas Dançarinas”.

Originalmente, a história dos irmãos Grimm recebeu o título de “As 12 Princesas Bailarinas”. Nele, um rei viúvo precisava criar sozinho suas doze filhas, que eram princesas (se você já acha Orgulho & Preconceito difícil com as cinco irmãs Bennet, imagina isso aqui). Mas, conforme elas cresciam, chamavam a atenção dos homens do reino, que tentavam invadir o castelo para vê-las. Com isso, o rei decidiu que suas doze filhas dormiriam em doze camas no mesmo quarto, que seria trancado durante a noite, pelo lado de fora. Assim, ninguém iria entrar ou sair, porque as princesas também eram danadas. Um dia, porém, ao checar suas contas, o rei percebeu que estava gastando muito dinheiro com as sapatilhas das filhas. Acontecia que, todas as manhãs, quando a porta do quarto se abria, elas deixavam suas sapatilhas gastas na entrada, sapatilhas que ficavam inutilizáveis de um dia para o outro, como se as moças tivessem saído para um baile a cada noite. O rei questionou as princesas, que nada responderam, desconversaram ou fingiam não saber do que ele estava falando. Então, na cabeça do rei, surgiu uma ideia: já que ninguém queria lhe dizer a verdade, ele lançaria um “concurso” em todo o reino — qualquer homem poderia passar três noites no castelo, no aposento ao lado do quarto das filhas, para adivinhar o que elas faziam, já que estavam trancadas no quarto. Aquele que desvendasse o mistério, como recompensa, casaria com uma princesa de sua escolha e herdaria o trono do rei. Mas, quem não descobrisse, seria morto.

Muitos pretendentes passaram pelo castelo e morreram por falta de empenho ou esperteza. Mas, no fim das contas, um deles, que era soldado, havia recebido a ajuda de uma boa feiticeira, que lhe deu, como presente, uma capa de invisibilidade, a fim de que pudesse perseguir as princesas sem ser notado. De modo que ele conseguiu entrar no quarto e acompanhá-las por uma escada secreta, escondida debaixo de um tapete. E descobriu que, todas as noites, as princesas desciam por essa escada que dava para um bosque, onde doze príncipes as esperavam e conduziam-as, de barco, até o salão de um castelo, onde cada par dançava.

Na adaptação para o Teatro dos Contos de Fadas, são apenas seis irmãs e uma delas, não me lembro se é a mais nova ou a mais velha, chama-se Loretta.

Loretta foi o primeiro nome que gostei na vida.

Me parecia diferente e lembrava a cor violeta.

Na última sexta-feira, tive um dos dias mais turbulentos da minha vida, o que é comum. Raros, porém, são os dias felizes. Sexta foi um dia feliz, apesar dos contratempos. Choveu e eu precisaria pegar o metrô e um ônibus para chegar ao hospital no qual tive consulta com uma ginecologista. Choveu e eu iria de calça jeans, o que é sempre um transtorno quando cai um dilúvio em Salvador.

Minha consulta estava marcada para o meio-dia, mas fui bem cedo, porque nunca tinha ido ali e estava com medo de errar o caminho. Às dez da manhã, minha ficha estava pronta. A médica só chegaria por volta de uma da tarde. Pelo menos eu era a terceira.

Horas depois, sem almoço e com a garganta seca, fui chamada por um residente no último semestre de Medicina — ele iria me examinar. É claro que fiquei um pouco desconfortável, mas ele foi respeitoso e atencioso nas duas horas em que fiquei dentro daquele consultório. Sim, duas horas. Uma só para responder ao enorme questionário sobre todo o meu histórico de saúde até aqui e acerca do meu objetivo em ter marcado uma ginecologista: eu quero engravidar.

Tudo na minha vida parecia motivo para a impossibilidade de uma gravidez. Endometriose era a maior razão. Ter feito sexo inseguro duas vezes na vida sem que nada me acontecesse, idem. Mas eu fui examinada pelo residente e pela médica e tá tudo muito bem, obrigada. Inacreditável.

Agora, eu preciso fazer uma bateria de exames, todos eles de rotina, porque há tempos não vou ao médico. Preciso saber, por exemplo, qual é o meu tipo sanguíneo. A vacina contra a rubéola ainda não tomei e isso já será providenciado; junto com o ácido fólico, um comprimido por dia nas quatro semanas anteriores a gravidez.

Se for menina (nós torcemos por uma menina, mas é óbvio que menino também é bem-vindo), não será Loretta, mas Valentina, nome que o pai escolheu e eu concordei por rimar com o meu sobrenome e por ter a cor violeta dentro dele. A Valentina lerá contos de fadas, segundo o pai, no idioma original — ele que vai ensinar. Eu vou sentar com a Valentina, todas as tardes, para assistirmos ao Teatro dos Contos de Fadas e as animações da Pixar com a Disney, em que as princesas são mais impetuosas e donas de si. Valentina não vai estudar numa “escola de princesas”, mas saberá que, um dia, grande parte do mundo ocidental vivia sob essa crença. Até se ela quiser ser princesa, no futuro, será questão de escolha, autonomia dela. Porque, antes de tudo, Valentina será feminista, vai receber essa criação.

Estou ansiosa sim, mas preciso fazer as coisas com calma. Até 2018, espero que ela já esteja aqui fora ou, pelo menos, dentro de mim, esperando ficar pronta. Espero que seja a bebê mais amada do mundo, um amor desmedido, maior do que a proporção da minha expectativa.

Podem ser 12, também. Gostaria muito.