Mais do mesmo nos bastidores da nociva indústria da moda.

No Facebook, circula o depoimento de uma jovem que denuncia as dificuldades nos bastidores da carreira de uma modelo. Num resumo, ela conta que ficou apenas cinco meses nesse circuito, mas que esse pouco tempo foi o suficiente para que ela enxergasse os malefícios de uma indústria exigente. O maior foco do texto está nos problemas acarretados por seu peso, sendo que a menina é claramente magérrima, “dá para notar no espaço entre as minhas pernas e nos ossos aparecendo”, conforme ela mostra, em três fotos. O texto, que passa pela precariedade dos apartamentos de modelos (um banheiro para 23 meninas) em contraste com o alto custo das agências (que “presenteiam” as modelos com dívidas), termina com outras denúncias em pequenos parágrafos: de modelos que já aceitaram sair com promotores em troca de trabalhos ou refeições em restaurantes, até agenciadores que encomendaram aborto para as modelos.
Tanto o depoimento dela quanto o que exponho a seguir valem por cada linha. Sobretudo se você é modelo, estilista, booker, dono de agência, “olheiro”, produtor de moda, maquiador, fotógrafo, jornalista de moda — enfim, qualquer profissional que faz essa indústria caminhar.
Quem me conhece sabe que já passei pelo fantasma infeliz de ter desenvolvido anorexia, embora o meu transtorno alimentar, conforme costumo dizer, nada tenha a ver com a carreira de modelo — eles existiram muito antes de eu tentar ingressar nesse universo ao qual nunca fui demasiadamente interessada. Além disso, não tive a famosa e grave anorexia nervosa — sempre fui consciente da minha magreza excessiva e nunca quis emagrecer mais — pelo contrário, minha luta diária é para vencer a depressão, me alimentar bem e ganhar peso suficiente e condizente com a minha altura.
Enquanto modelei, não foi diferente. Tive a “sorte” de ir exatamente na contramão da exigência absurda pré-estabelecida: as agências me pediam para engordar, da mesma forma que já perdi trabalhos por ser magra demais. Acontece que fui uma exceção à regra e a regra é clara: quanto mais magra, “melhor”, mais trabalhos a modelo consegue. De fato, lá fora, é assim que funciona. Aqui no Brasil, essa exigência não é tão grande (embora exista) e, inclusive, o caminho mais comum é a modelo ter um corpo bacana para trabalhar aqui primeiro e, juntando material, tentar contrato com agências internacionais. Isso nem sempre vale para todas: há meninas que encaram uma temporada internacional direto e, só depois, estreiam nas semanas de moda daqui. Mas isso também é raro, o mercado é assaz competitivo, algumas moças são “apadrinhadas”, “descobertas” e a vida segue.
Tem também um dos piores aspectos: por mais que você esteja inserida no “padrão”, isso não significa a garantia de uma carreira mundial de sucesso. E, mais uma vez, me dou como exemplo sim. Minha cidade (Salvador), nunca teve grandes agências, nem todas são confiáveis e, na primeira vez que visitei uma, da qual fiz parte por um certo tempo (dois anos, fui muito paciente), a agência preferiu investir em mim do que fazer com que eu investisse nela. E o certo é isso mesmo: quando a agência vê que uma menina tem potencial para modelo, ela investe, não cobra. Mas a agência que procurei raramente fazia isso. Suas modelos, na maior parte, eram moças da classe média para cima, que pagavam da mensalidade das aulas de passarela até os books fotográficos mais exigentes. Algumas, inclusive, não tinham o perfil para a moda fashion, de passarela, essa do padrão inalcançável — mas eram influenciadas a achar que se encaixariam nisso, um dia. Vi muitas meninas “sem altura suficiente” ou “acima do peso” alimentando ilusões e tendo os pais investindo nisso, com total apoio da agência, óbvio (interessada em lucrar, apenas). Eu não paguei nada e achei que tive sorte, mas a agência também não me oferecia tantos trabalhos, por exemplo (o que também é um aspecto problemático empresarial dessa cidade, mas não apenas). E, sem trabalho, o tempo passa e você não ganha experiência. Então, saí dessa agência e fiquei muito tempo desiludida e sem trabalhar mais com moda, até que um booker muito competente me convidou para participar dos castings (as seleções para trabalhos e/ou agências de São Paulo e internacionais), mas nisso eu já estava com bem mais de vinte anos e, se você tem mais do que dezesseis, nessa indústria, conforme a autora do texto no Facebook narra: você está velha, idosa, caquética, pronta para aposentar uma carreira que ainda nem começou. Então, de nada adiantou eu ter sido aquela menina que ficou entre as dez finalistas de um concurso regional de modelos; de quem todo mundo dizia que desfilaria em Paris, Milão, Londres, Nova York, Tóquio e qualquer outra semana de moda importante. De nada adianta continuar magra se a idade passa e nenhuma agência dita séria costuma investir em senhoras de vinte e quatro anos de idade. Pois a “verdade” é uma só: a beleza é jovem, alta, magra, preferencialmente loira e de olhos claros, virgem, inocente e burra. Eu tinha tudo para desenvolver transtornos psicológicos e alimentares muito mais graves por conta dessa indústria, mas nisso sim eu tive um bocado de sorte: a minha cabeça sempre foi no lugar, sempre tive os pés no chão, consciência de que essa é uma carreira bastante passageira e limitada sob inúmeros aspectos e, mais do que tudo, sempre fui observadora em demasia, para não precisar cair em determinadas ciladas. Deve ter sido por isso que não dei certo — não que modelos precisem ser idiotas, mas porque a maioria dos agenciadores adoram manipular e pouco toleram quem desconfia; quando uma modelo tenta tomar as rédeas de suas carreira, o que é um direito dela, ela é “a malvada”, a “mal agradecida”:basta lembrar do que quase aconteceu com Gisele, da má fama que seu ex-agente quis atribuir a ela. Pois é, nem a maior representante de todas as modelos que já existiram e existirão escapou dessa.


Eu costumava assistir ao reality show de modelos idealizado e apresentado por Tyra Banks, o America’s Next Top Model, e lembro de uma bela lição que a grande Tyra apresentou, após uma eliminação no programa (não vou lembrar o ciclo, nem o episódio), que é competitivo como essa indústria: de surpresa, Tyra apareceu na casa das meninas levando pizza e contando uma história do início de sua carreira. Ela disse que estava na Europa quando a agência para a qual ela trabalhava chamou a sua mãe, mostrou um papel e disse: “essa aqui é a lista dos estilistas que NÃO QUEREM trabalhar com a sua filha, enquanto ela estiver acima do peso”. Tyra conta que, depois disso, ambas foram a um restaurante e sua própria mãe ofereceu alternativa melhor para a carreira da filha, dizendo: “vamos para os Estados Unidos, apostar em outra coisa”. Foi assim que Tyra, com apoio familiar e bom gerenciamento, se tornou um dos rostos mais destacados do mundo, uma modelo e empresária de sucesso, cujo nome ninguém esquece. E olha que ela também já chegou a ser “retirada” de um desfile, minutos antes de entrar na passarela, coisa que também aconteceu na Europa, e que ela contou durante o programa.
Inseri todas as informações acima, pra gente pensar e algumas questões:
Quantos de nós, inseridos na noção da ditadura da magreza, não contribuímos mais ainda para um padrão doentio e inalcançável?
Quantos jovens talentos já desistiram da profissão ou até da própria vida em busca do sonho de se tornar o sonho imposto por outra pessoa, por uma mídia, por um estilo de vida?
Só para lembrar: não sou contra a moda, sou contra um padrão social que se acha no direito de exigir que pessoas percam sua saúde física, emocional e psicológica para se encaixar nele (como se não existissem alternativas totalmente possíveis de mudar esse padrão). Nenhum status “profissional” deve custar a vida de uma pessoa. E, nesse caso, de várias. A autora da publicação é apenas um exemplo de uma das poucas pessoas corajosas que soltam o verbo sobre essa indústria. A maioria se cala.
Pense na responsabilidade que você tem no trato com modelos. Tem menina que vai para a Ásia, não aguenta as exigências e SE MATA. Tem modelo sua vomitando o almoço nesse exato momento. Tem modelo sua que pula refeições, que desenvolve transtornos alimentares gravíssimos, com “direito” a danos psicológicos irreversíveis. Quantas vezes você,booker, estilista ou dono de agência, pediu que suas modelos perdessem “alguns quilinhos”? Quantas vezes vocês perguntaram se elas estavam bem, se já tinham almoçado ou jantado, se fizeram um lanchinho nos intervalos dos desfiles?
Pois é. Seja menos cúmplice e mais cuidadoso. O sucesso dessa indústria precisa depender do bem-estar das pessoas, em lugar se se afogar no vômito da bulimia delas. A mudança, como sempre, começa com cada pequena engrenagem e é irresponsabilidade sua ignorar isso.