Não se nasce mulher, torna-se objeto que tentarão silenciar, deslegitimar e julgar.

Quando eu tinha 14 anos e era louca de andar Salvador para cima e para baixo sozinha até de madrugada, uma vez, fui na abertura de uma exposição no Teatro Vila Velha e voltei, caminhando para casa, às duas da manhã. Um taxista tentou me convencer a entrar no táxi dele por mais de cinco minutos quando eu já estava na metade do caminho. Corri. Minha mãe nunca soube.

E também não soube dessa: há um restaurante embaixo da casa dos meus pais, no qual minha mãe trabalha. Na adolescência, às vezes, eu ficava lá, de garçonete. E odiava. O restaurante vendia P.F. por um preço acessível, vários taxistas o frequentam até hoje. Eu tinha meus doze, treze anos, e era assediada. Recebia telefones em guardanapos, “convites” ao pé do ouvido, quando a minha mãe não estava por perto. E sim, eles sabiam a minha idade.

A gente passa a vida colecionando violências. Infelizmente, ser mulher também é isso. Não se nasce mulher, torna-se objeto que tentarão silenciar, deslegitimar e julgar.

Pois acreditem: me cobraram, via inbox, algum “parecer” sobre o estupro que a Clara Averbuck sofreu por um motorista do Uber, dentro do carro. Porque não gosto do trabalho da Clara (pois é, não gosto, tenho meus motivos e não convém explicar), acharam que eu colocaria “lenha na fogueira” duvidando da história. Curiosamente, essa cobrança aconteceu com outra amiga: contaram para ela a “novidade” como se boa coisa fosse. Se você espetaculariza a dor de uma mulher estuprada: saia daqui. Eu não sou da sua turma. Clara e qualquer outra vítima de violência masculina merece acolhimento, solidariedade, não interessa as diferenças que temos ou se o santo não bate. Não bastasse sofrer com esse trauma, ela ainda precisa lidar com comentários do tipo “dedada não é estupro” e “o quanto você foi estuprada?” — partidos de homens, obviamente. Junto com o relato, vem a declaração de que ela não pretende registrar boletim de ocorrência sobre — e o julgamento aumentou. Eu já fui na delegacia da mulher, acompanhei amigas que estavam em relações abusivas, nem sempre se é bem tratada numa situação tão difícil e constrangedora, muitas vezes com marcas visíveis. Quase sempre tem um macho patenteado e desumano do outro lado, duvidando do que a vítima expõe. Então, não. Não basta denunciar formalmente. Às vezes, sequer adianta. Quando você só tem a sua palavra, menos ainda.

Com a repercussão do caso, li amigas aconselhando mulheres sobre acolher outras mulheres quando elas estiverem bêbadas em festas, precisando voltar para casa. Vi amigas compartilhando informações e serviços de taxistas mulheres. Se o estupro é risco evidente quando estamos bêbadas ou sóbrias, dentro ou fora de casa — ou seja, vinte e quatro horas por dia -, imaginem em situação vulnerável. O que notei, nesses textos, é que não temos mais esperança de que homens se conscientizem para o FATO de que estupro é crime, que você não pode fazer o que quiser diante de uma mulher bêbada, sóbria, de burca, de biquíni, o que for. Todos os dias morremos por isso e gritamos sobre isso, as mesmas coisas, as mesmas palavras. Nos últimos dias, não falei nada porque nada tinha a acrescentar. E nada tenho. Só posso me juntar ao coro: nós por nós, precisamos nos proteger, porque homem nenhum o fará.