O mínimo para (sobre)viver.

Ellen sabe o que lhe acontece, pois as coisas ficaram piores desde que seus desenhos em um blog “provocaram” o suicídio de uma garota anoréxica. Desde então, ela enfrentou quatro internações por estar bem perto da morte, atingida pela mesma doença. Sua estrutura desnutrida é visível: nos ossos aparentes, nos olhos fundos e saltados, nos lábios ressecados e na pele pálida. Ela conta as calorias de tudo o que come e faz abdominais e longas caminhadas no intuito de perdê-las. A situação familiar também é das piores: um pai ausente, uma madrasta super-protetora e preconceituosa quanto a mãe de Ellen — lésbica que vive casada com uma mulher. Só a sua meia-irmã compreende, ainda que sofra. Mesmo assim, todos se importam com Ellen, só não sabem como lidar e, mais uma vez, internam a garota. Mas este é um um local diferente, numa casa com outros jovens que enfrentam o mesmo problema, numa terapia incomum que parece funcionar entre “casos perdidos” como o dela.

Essa é a premissa de O Mínimo Para Viver, novo drama adolescente da Netflix, protagonizado por Lily Collins (a estrela do lindo e delicado Love, Rosie), que recentemente confessou ter sofrido de anorexia quando mais nova; e Keanu Reeves, diga-se de passagem, mais bonito do que nunca, como o Dr. Beckham, cuja metodologia especial traz esperança à família de Ellen. Depois que a mesma se muda, seus aparelhos tecnológicos são confiscados e ela passa a conhecer as companheiras de “confinamento”: o caso mais grave talvez seja o de uma jovem infantilizada, cercada de Hello Kitty e pôneis de pelúcia, que se recusa a comer; há outra jovem, grávida, por incrível que pareça; uma garota finge estar se recuperando, mas esconde o próprio vômito numa sacola, embaixo da cama; e há um rapaz, o único da casa, um inglês dançarino, muito inteligente, que precisou deixar sua carreira para cuidar da saúde. Todos são supervisionados por enfermeira e psicóloga experientes nos “truques” que os pacientes usam para tentar enganá-las. Ainda assim, o ambiente não é exatamente severo: nos momentos de refeição, por exemplo, a participação de todos é obrigatória, mas você come o que quiser — chocolate no jantar, caso seja a sua escolha -, sabendo que isso faz com que você perca pontos e não “suba de nível” para melhorar.

Mas o que preciso dizer, o que há de especial nesse filme é o seguinte: essa é a primeira vez que vejo uma doença que já me atingiu sendo apresentada sob um ponto de vista honesto e não necessariamente focado em personagens e/ou situações-clichê: em lugar das supermodelos massacradas pelas exigências absurdas do mercado, temos adolescentes normais, “feios”, até mesmo nojentos, tratados como “esquisitos” pela maioria e que não entraram nessa só porque queriam ser a modelo magérrima dos editoriais de alta-costura. Pelo contrário. E é o Dr. Beckham quem deixa isso nítido, quando afirma que Ellen não está deixando de comer ou se alimentando mal porque ela gosta e quer obedecer a um padrão, mas sim para chamar a atenção, por ter se viciado nisso, por estar em desespero.

Eu nunca vi algo assim, nem mesmo fora da ficção. Precisei trocar de terapeuta MUITAS vezes por conta dessa falta de compreensão, desse julgamento superficial de “ela não come porque gosta de ser magra / porque se enxerga gorda no espelho”. Nunca foi assim, o que mostra que uma doença pode ter várias nuances: depressão, por exemplo. Assim como pessoas que sofrem de compulsão alimentar não param de comer quando tristes e/ou nervosas, pacientes anoréxicas também evitam se alimentar pelas mesmas razões. E tamanha sensibilidade está no filme, mostrando que nada é tão exato ou tão “padronizado” como a sociedade impõe: não existe um “ideal” de beleza, assim como nem todos com distúrbios alimentares convivem com a doença exclusivamente para obedecer a esse “ideal”. Sem dúvida, isso foi muito bem captado por conta da direção de Marti Noxon (que também assinou o roteiro), pois ela precisou aliviar a polêmica gerada antes do lançamento do filme, sobre a ideia de que o trailer e as imagens de divulgação “glamourizam” a doença — nada disso acontece, mas é necessário mostrar como a anorexia funciona e como um ser humano fica quando sofre dela.

Outra coisa bacana é algo que merece elogio atualmente, mas não deveria; espero, no futuro, não precisar falar mais de representatividade porque ela será regra, não exceção: em um filme sobre anoréxicos, só tem gente magra? Errado. A enfermeira-chefe é gorda (e também negra), assim como uma das internas. Mostrando, mais uma vez, que não é apenas um típico físico o atingido por essa doença, ou, melhor dizendo: há pessoas com transtornos alimentares que não parecem ter transtornos alimentares. Outro ponto interessante: Ellen, artista, desenhista, gostava de expor seu trabalho em um Tumblr e, para quem não sabe, o Tumblr é uma rede social de compartilhamento de textos, vídeos, fotos e músicas, semelhante a qualquer blog, que reúne muitos jovens e a maioria alega sofrer de depressão — glamourizada ou não, é um dado grave e que deveria ser levado mais a sério. Eu tenho Tumblr e costumava ler relatos depressivos diariamente. Pelo bem da minha saúde mental, deixei de acompanhar esses blogs para, ironicamente, seguir apenas ilustradoras como a Ellen.

Infelizmente, O Mínimo Para Viver começa a perder a mão perto do fim, em cenas que não me pareceram bem planejadas, mas sim um pouco fora do contexto, embora façam sentido para o desfecho do drama. E eu esperava mais participação de Keanu Reeves, descrito como a última esperança de Ellen, mas que aparece menos do que outros personagens. Fora esses empecilhos, o filme é interessante não apenas para o público jovem, mas principalmente para adultos com filhos, que estejam ou não passando por algo semelhante (uma das cenas mais comoventes e, ao mesmo tempo, desconfortáveis, se dá entre mãe e filha).

O Mínimo Para Viver é informativo, divertido, com boas referência (literárias, um poema de Anne Sexton para ilustrar uma cena), leve quando deve ser e pesado sempre que necessário. Vale o seu tempo.