Para curar distâncias e se distanciar de traumas:

Menino Caio foi a minha maior e mais difícil prova de amizade e, quando a gente lida com pessoas difíceis, aprende a ceder. Baixar a guarda é o prêmio que a paciência cobiçou.

No filme Clube da Luta, na última cena, Edward Norton pega a mão de Helena Bonham Carter e se desculpa pelo fato de ambos terem se conhecido quando ele estava em sua pior fase. Isso funciona muito bem como metáfora para o meu vínculo com o Caio. Pelo menos a primeira parte da nossa história.

Eu e Caio temos uma diferença de quatro anos apenas. Sou a mais velha e, mais do que ser, sinto-me mais velha. Caio é a pessoa que mais faz com que eu me sinta mais velha porque ele exala juventude — e a juventude tem um cheiro ruim, adocicado, enjoativo e até pedante — sobretudo para uma sinestésica.

Assim como todas as pessoas do mundo, pelo menos as que tiveram uma educação certamente superior a minha e um mínimo de equilíbrio familiar, Caio é mais inteligente do que eu. Antes de nossa ruptura, ele era insuportavelmente inteligente, intimidador. Existe inteligência que machuca mais do que um punhal, que não tem dó de quem arrasta pelo caminho. Astrologicamente falando, como todo ariano jovem, Caio se interessa em vencer, compete para vencer, não aceita menos que isso. E ele nem está tão aerado assim.

Depois que retomamos amizade, Caio estava diferente. Eu, que lamento tanto o tempo que ficamos separados, também sou dada a conformismos. O que não tem remédio, remediado está. Talvez a separação tivesse sido necessária, para que cada um voltasse mais para si e pensasse no quanto magoou o outro. Hoje, Caio é cheio de cuidados comigo porque, na distância, ele percebeu os equívocos que cometeu, assim como eu percebi os meus. Agora, tentamos caminhar mais ou menos sem conflitos. Há dias de êxito. Outros, nem tanto. De qualquer maneira, estamos melhor do que já fomos.

No Black Mirror da vida real de hoje, há pouco tempo, conheci um rapaz no Facebook com as mesmas características do Caio “de antigamente”. O nome dele também tem quatro letras e começa com a letra C. Também nos conhecemos provavelmente por causa de uma banda favorita, mas essa é favorita de muitos. Não temos nenhuma diferença de idade, nascemos no mesmo ano, embora eu seja alguns meses mais velha. Ele é bonito, inteligente, Q.I. elevadíssimo. Somos mais divergentes que concordantes.

Meu namorado sempre diz que devo fazer novas amizades. Respondo que ele e Caio me bastam, são o suficiente. Ele também me ensinou que só os afetos importam, e interpreto isso contra todo o cinismo e pedantismo da juventude. Meu ex-marido dizia que, em alguns momentos, a sua filha queria ter razão em tudo, como se ela já fosse uma pessoa formada, completa. Ninguém é, não importa o quanto cresça — isso eu consegui formular sozinha.

Ontem perguntei ao meu namorado de 43 anos como seriam as nossas vidas caso tivéssemos a mesma idade, 24. Concluímos que, provavelmente, nem amigos seríamos. Uma vez, na faculdade, ele discutiu com uma moça a tal ponto que ela chorou. Ela chorou e ele não entendeu, mas ficou muitíssimo sensibilizado, depois. Está fragilizado com isso até hoje, porque nunca se desculpou.

A minha experiência de juventude foi um tanto quanto diferente da maior parte dos jovens de vinte anos que conheço. Vida estabilizada é teoria que vejo em filmes. Nunca tive. Fica difícil vencer a inércia entranhada, porque nem um futuro de reviravolta contra o sistema ao qual fui criada parece bom. Parece que não é para mim, não é o que mereço, a superioridade tosca do meu sofrimento interno vai e brada por aí que tudo é muito medíocre.

Nenhum jovem inteligente e de boa índole quer machucar intencionalmente. É que ser “mentalmente diferenciado” da maioria é atraente demais até para eles mesmos. O rapaz que me lembra o Caio de antes diz coisas como “desculpa, sei que isso é muito complexo para o seu entendimento” ou “sou mais tal coisa do que você, com certeza, pois frequentei tal círculo e sei do que estou falando”, e quero crer que ele faz isso sem notar. Talvez seja ingenuidade minha. Eu não sou muito esperta, o meu raciocínio é mesmo lento e as coisas que aprendi, aprendi por vivência, na marra, forçada e sem saída.

Já perdi a minha chance de ter um doutorado aos 30 anos de idade, conforme aconteceu com o meu namorado. Demorei a escolher a faculdade e ainda nem estou lá, nem sei se estarei. Não lido bem com cálculos, não conto pra saber se o troco veio certo ou errado. Não é coitadismo, são fatos mesmo.

Caio pede que eu não fique isolada, mas não quero ter que lidar com o seu sósia de um ano e meio atrás. Também existe a possibilidade de eu estar me precipitando sim, mas a minha cautela pede dez passos atrás com qualquer pessoa.

É para isso que os traumas servem. Não é culpa de ninguém.