Pessoas aleatórias da minha vida — 42.

Paraty é um lugar de figuras extraordinárias. Viajei apenas com toda a expectativa de conhecer paisagens e caminhos, de modo que fiquei surpresa com as pessoas.

Na oficina literária, por exemplo, um dos participantes era o Sylvio Lanna que, além de cineasta, é criador da empresa Bucha Sirius. Talvez ele seja mais conhecido como “o homem da bucha”. Sylvio, um senhor na faixa dos sessenta anos que pronuncia todas as palavras corretamente, distribuiu buchas aos colegas de oficina e ganhei um conjunto delas em formato de esponja facial. Ou seja, mais um auxílio para evitar a acne (obrigada, Sylvio).

Um dia, saímos do Centro Histórico à procura da farmácia que fica em uma praça. Subestimei a temporada de chuva carioca e, por não ter me agasalhado o suficiente, uma forte gripe me atacou, fui atrás de remédios. Nessa praça, há um longo corredor indicando o comércio da cidade. Fomos andando.

Encontramos um sebo ambulante, projetado por Daniel de Jesus Lima, esse cara bacana e sorridente da foto. Achei o acervo dele inacreditável, nem os melhores sebos de Salvador chegam perto desse requinte, e isso só não me surpreende tanto porque estávamos em uma cidade literária. Daniel fez estantes dentro dessa kombi e lá expõe seus livros. Na frente dela, há uma mesa de madeira com mais títulos expostos. Livros novos, livros antigos. Livros em diferentes idiomas, que estrangeiros lhe oferecem e ele disponibiliza para venda. A kombi é marcada pelo colorido dos grafites e, em cima dela, há um palco, por incrível que pareça — mas ele diz que precisa reformá-lo.

Na página Sebo Cultural Paraty, no Facebook, Daniel explica que “a necessidade faz o homem” e, pesquisando pela internet, ele percebeu que não há ideia semelhante no Brasil. O máximo que eu mesma já vi de mais próxima dessa ideia é uma biblioteca ambulante que, às vezes, estaciona na frente da antiga Faculdade de Medicina, aqui em Salvador, no Pelourinho.

Há dez anos Daniel trabalha com livros (também já chegou a vender vinis), há três ele está com essa kombi, que foi encontrada queimada e seria vendida para um ferro velho. É a sua vida e ele adora contar essa história, que não deixa de ser interessante, a história de um “operário da cultura”. Por enquanto, no chão da kombi, há caixotes com mais livros dentro. Ele planeja organizá-los nas estantes, porque quer colocar um banco para que o cliente sente e procure o que deseja.

Estou contando essa história não apenas pelo fato do Daniel ter sido extremamente simpático conosco, mas também porque acredito na divulgação da cultura, e acho essencial passar uma mensagem dessas adiante. Caso você esteja em Paraty, não deixe de visitar o Daniel e seu Sebo Cultural. A literatura ali presente é muito boa, mas a prosa com o dono da venda é melhor ainda.

(“Pessoas Aleatórias da Minha Vida” é uma série literária. Acompanhe outros capítulos aqui.)