Rancor.

Nina Galdina
Jul 25, 2017 · 3 min read

Existia uma “regra” na empresa: o funcionário mais antigo tinha o direito de ter o seu pedido atendido, dependendo das possibilidades. Isso foi mencionado no dia da entrevista, eu me lembro porque uma candidata, que não passou, questionou como seria a mudança de turno, por exemplo, porque ela estudava exatamente no horário em que a empresa precisava de novos funcionários, mas gostaria muito de trabalhar ali. Ok.

Após um ano e meio na empresa, fui assaltada voltando do serviço. No dia seguinte, pedi para mudar de turno, da noite para a manhã. Meu psicológico tava todo ferrado, eu não conseguia mais sair à noite e, durante o dia, caminhava olhando para todos os lados. Fui numa profissional e recebi um atestado alegando essa minha impossibilidade.

Um dia, o gerente me chamou na sala e anunciou: “você tem duas opções. Pode mudar para a manhã e ficar no setor ‘x’ ou pode mudar para um horário intermediário e continuar no setor ‘y’. É que o seu setor atual, pela manhã, já está preenchido”. Fui burra e aceitei a segunda opção, achando que o intermediário me salvaria dos meus demônios. Ele disse: “sábia escolha”. Mas eu saía da empresa às seis e pegava um ônibus que demorava duas horas para passar no ponto, sempre lotado, e mais uma hora para chegar em casa, só porque ele passava na esquina da minha rua, onde eu descia correndo e alcançava o portão, com um corredor de acesso ao tráfico local bem em frente.

Uma semana depois, vi meu colega Puxa-Saco pegar a “minha” vaga pela manhã. No meu setor. Conhecendo bem menos de todo aquele assunto. E trabalhávamos com vendas, com metas. Eu sabia indicar os produtos certos, sabia o que os clientes procuravam. Ele, não.

O Puxa-Saco era FORMADO em Psicologia, mas tava lá no trabalhinho de nível médio com quinze minutos para o lanche que ele, claro, sempre ultrapassava.

O Puxa-Saco vivia na gerência, bajulando o chefe.

O Puxa-Saco chegou na empresa dois meses depois de mim.

O Puxa-Saco fazia fofoquinha dos coleguinhas para o “the boss” (como ele chamava) — suspeitávamos.

Se os coleguinhas tinham alguma dúvida sobre comissão ou questões internas e trabalhistas sobre a empresa, o Puxa-Saco se distanciava, dizia que não queria se envolver.

Em pouco tempo, o Puxa-Saco cresceu e conseguiu um cargo fictício lá, que eu nem morta queria, pois se trabalhava mais para receber a mesma coisa. Deixei claro e cristalino que, se um dia surgisse tal oportunidade, que nem pensassem em mim. Eu fazia o meu trabalho do modo certo e recebia o justo.

Mas lá estava o Puxa-Saco, usurpando da única “ambição” que tive naquela empresa, e que se deu por uma necessidade.

O Puxa-Saco não tinha sido assaltado.

O Puxa-Saco não estava traumatizado.

O Puxa-Saco não era uma mulher de 40kg, obviamente vulnerável.

Quando a gerência mudou, o Puxa-Saco se fodeu e a cabeça dele rodou junto com a minha, porque quem substituiu o antigo chefe não gostava de bajuladores como ele, nem de desafiadoras baderneiras com as leis trabalhistas na ponta da língua, como eu.

Rita Alves fez um post mais ou menos sobre isso e lembrei desse caso, porque guardo rancor.

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