Sobre a mulher gorda que é a nova capa da Playboy:

(Sim, lá vem a magricela “roubar” o “lugar de fala”.)

Me incomoda muito ainda essa questão da Playboy exatamente por ser a Playboy (também não vejo o menor empoderamento nisso). Assim como me incomodou essa mesma moça já ter saído na capa da edição especial da versão digital de uma revista feminina sobre moda — embora eu também tenha compartilhado essa conquista, na época. Sim, representatividade importa, tanto que ela merecia mesmo era a capa da versão impressa, a que vende de verdade e que a grande mídia tem medo de arriscar, de colocar uma gorda. Eu me lembro de quando a Elle “comemorou” a diversidade da beleza, com suas páginas recheadas de mulheres gordas, tatuadas, deficientes e idosas (mulheres negras também inclusas, e elas já são frequentes na revista). Mas a capa? A capa eram três modelos magras e jovens: duas brancas e uma negra.

Então, assim: vamos parar de aplaudir o falso empoderamento capitalista, tá bem? O interesse da Playboy é vender, e o da querida Avon também. A marca O Boticário criou a Quem Disse Berenice? com o mesmo objetivo e, se o interesse da revista pornô não fosse apostar para lucrar, até hoje eles colocariam panicats e ex-participantes de reality show. Tem uma gorda na capa porque a revista não compete mais com a pornografia virtual. E só. A hipocrisia é a mesma: mês que vem tem outra magricela e, talvez daqui há dez anos, com muita “sorte”, gordas sejam frequentes na capa e no recheio dessa revista — se isso realmente importar pra alguém, no quesito da autoestima. Do lado de cá, queria muito acreditar que todo o discurso do feminismo até aqui servia exatamente para não sermos oferecidas em uma bandeja pra masturbação masculina. Pelo visto, eu estava errada. Os aplausos que giram em torno da nova forma de objetificação feminina, disfarçada de empoderamento is the new feminismo 2016™.