Sobre adultos sem limites e crianças sendo culpabilizadas:

Ilustração de: Naomi Wilkinson.

Vou contar um segredo para vocês: existe um aplicativo (na real, existem vários) que simula conversas no Whatsapp. Na versão free, você forja uma conversa entre duas pessoas, mas a marca d’água do app aparece. Na versão paga, você forja e parece que é real. Se eu não engano, foi assim que aquele cara fingiu ter dormido com uma moça comprometida que vivia recusando o assédio dele. A moça e o rapaz trabalhavam na mesma empresa. O rapaz forjou as conversas que insinuavam envolvimento entre ambos e tornou-as públicas. A moça foi constrangida em seu ambiente de trabalho, passou por uma crise em seu relacionamento, mas processou o criminoso e ambos entraram em acordo: da mesma forma que ele a prejudicou publicamente, foi obrigado a se desculpar publicamente. Tá o post aqui no Facebook, de prova.

Então, antes de vocês tomarem partido sobre “lado a” ou “lado b” numa discussão, verifiquem a veracidade daquilo ali. Ou as possíveis distorções.

Para quem não está ciente, o assunto dessa tarde de terça-feira é: criança foi na casa de UMA MOÇA, abriu um armário lá, viu um daqueles bonecos colecionáveis e, naturalmente, por ser criança, quis brincar. A dona da casa não permitiu e, em algum momento, pelo que entendi, ela e a mãe da criança brigaram porque “ninguém mexe no que é meu” e “mas meu filho é uma criança, se tem brinquedo, ele vai brincar sim e acabou”.

Então, esse print aí de uma SUPOSTA conversa no Whatsapp de um SUPOSTO homem discutindo com uma SUPOSTA mãe, comparando criança a peido e ditando frases misóginas contra a SUPOSTA mulher, É FAKE. Por que ele se tornou viral? Porque a militância A-DO-RA uma distorção de fatos também. Eu sei porque faço parte. “Veja como homens tratam as mulheres, são misóginos, machistas, não respeitam mães” — isso é verdade. Mas usem exemplos reais, estamos diante deles todos os dias, infelizmente.

Agora, um pouco de “ninguém perguntou, mas”:

1. Independente dos graus de arrogância de ambas as partes adultas da questão, quem não tem culpa nessa história é a criança. Criança vê brinquedo? Quer brincar. Criança vê até o que não é brinquedo e transforma em um. Eu lembro, fui criança até outro dia;

2. Crianças são o reflexo de seus pais, da criação que recebem. Se você ensinar, ela vai entender. Talvez demore um pouco, talvez não (cada uma tem o seu ritmo). Você ensina que a criança não pode pegar um objeto que não é dela, a não ser que tenha pedido permissão. É claro que ela vai se impressionar com algo que é um brinquedo mesmo, talvez ela esqueça das regras que aprendeu recentemente e que, futuramente, ela saberá que compõem a vida, mas daí você relembra. E o fato dela esquecer não significa que seja mal-educada, mal-criada: é criança, está em fase de aprendizagem e você teve várias décadas aí para aprender a ser paciente também. Tem uma frase maravilhosa do Ian McEwan que eu adoro, uma frase que ele disse recentemente e jamais esquecerei: “alguém que não pode tratar bem as crianças está em bancarrota ética”. Eu mesma não confio em quem não sabe lidar com crianças — e saber lidar não significa gostar e querer ter uma, mas sim respeitá-las e tratá-las como elas são: seres humanos em fase de crescimento e construção de si mesmas;

3. CRIANÇA NENHUMA MORRE POR OUVIR UM “NÃO”, a não ser que você negue alimentação, saúde, amparo e outras NECESSIDADES (inclusive, se fizer isso, pode responder judicialmente, viu? Pra você que é pai e deixa de pagar pensão para comprar caixotes de cerveja, é bom lembrar que a única prisão que funciona direitinho nesse país é exatamente quando você deixa de cuidar do seu filho). Eu fui uma criança que berrava no meio da rua quando a minha mãe não comprava os brinquedos que eu via na finada Mesbla. SOBREVIVI, TENHO VINTE E CINCO ANOS, SOU GUERREIRA. Minha mãe também sobreviveu, apesar de tanto constrangimento que ela passou comigo, apesar dela se sentir ainda traumatizada, pois até hoje relembra os meus chiliques. Fui muito mimada;

4. “Ah Nina, mas você não tem filhos, não sabe como é”. Beleza, tá correta, Embora queira ser mãe. não posso falar por quem é, mas o bom senso taí para o alcance de todos os adultos e, numa tentativa hiperprotetora de defender os filhos, tem mãe que perde a razão sim. E lugar de fala não é lugar de “cala-a-boca-eu-vivi-isso-eu-sei-como-funciona-só-eu-posso-falar”;

5. E já que algumas mães se acham as inteligentonas que sabem de toda a verdade universal e absoluta, é desnecessário que eu liste as consequências de uma criação a base de excesso de mimos, né? Pesquisem sobre as criOnças de 30 anos, parasitas que vivem com os pais e por eles são sustentados. Infelizmente, conheço MUITOS que são assim há anos e, no momento, usam o desemprego como desculpa, com pai e mãe ou avó bancando os rolês, nunca tiveram quem assinasse a carteira, não acordam cedo para a labuta e têm vergonha de colocar um currículo na lojinha do bairro, mas batem ponto no Outback com dinheiro que não é deles;

6. Nem toda pessoa com mais de dezoito anos que coleciona “bonecos de criança” possui uma patologia mental. Nem todas as mães são médicas, ou seja, não é toda mãe que pode assim diagnosticar uma pessoa através de uma informação aleatória. Tá bem feio pra vocês, viu?

A única conclusão que tiro dessa tour é: infelizmente, nesse caso, errada é a mãe achando que tem suprema razão e que não impõe limites ao filho, ensinando que ele precisa pedir autorização de um adulto para manipular algo que não é dele. E, dizendo isso, não tô demonizando todas as mães da face da Terra, eu tô falando de uma situação específica.

A gente podia tá se pegando pra povoar a Terra de herdeiros bem-educados nessa tarde de terça-feira, mas olha o que vocês estão discutindo. Vocês é que não colaboram.