Sobre não sermos donas dos nossos corpos:

Cena do filme “Predestination”.

Acabei de reassistir um filme de ficção científica sobre paradoxo temporal (Predestination, tem na Netflix e é muito bom) e chega um determinado momento em que a protagonista, grávida nos anos 1960, tem a criança. Mas aí ela acorda e é abordada por um médico que lhe pergunta se ela já fez exames completos anteriormente e o que eles mostraram. A paciente afirma que tudo estava normal. E então o médico revela que ela nasceu hermafrodita, mas com todo o sistema reprodutivo feminino perfeito, porém, o parto de sua filha foi uma cesárea. E o órgão sexual mais evidente era o masculino que, através de uma cirurgia, pôde ser reconstruído. Até então, ela se sabia mulher e, de repente, tornou-se homem. As próximas cenas são dolorosas e mostram seu período de adaptação forçada.

Isso é ficção.

Como eu disse, já tinha assistido esse filme antes (em 2014, quando estreou), mas sem me focar especificamente nessa cena, até agora. Essa cena me tocou muito hoje porque, mais cedo, vi na timeline a notícia de que uma mulher morta deu a luz a gêmeos. Isso mesmo: ela teve hemorragia cerebral e foi mantida “viva” por mais de cem dias (pela família) para que os bebês nascessem. Saiu no G1.

A notícia recebeu o tratamento de “o que importa é a vida dessas crianças”, da primeira até a última linha, pois a matéria é repleta de sentimentalismos, como o fato de que a equipe do hospital chegava a cantar para os bebês no útero e acariciavam a barriga da mãe. A velha máxima do “tanto espírito no feto e nenhum no marginal”, embora não tenhamos marginal algum nessa história, apenas, talvez, um corpo vandalizado por “boas intenções”. Como sou sensível mesmo, fiquei num misto de raiva e compaixão pelo entendimento da família de que perder uma filha é muito devastador, de modo que não queriam, também, perder os netos, como a própria mãe afirma: “a gente nunca se prepara para perder um filho. A dor de perder um filho é muito grande. Para uma mãe, é a pior dor. Ela foi guerreira até depois da morte, conseguiu dar vida aos filhos dela. Vê-los, agora, é lindo”. Por um lado, é compreensível. Por outro, é violento.

“Mulher só serve pra ser incubadora” foi o que mais li das minhas amigas feministas, hoje. E concordo. Viva ou morta, sã ou louca, responsável ou não, por consentimento ou por estupro — não importa. Sempre tem quem aplauda e mande em nós porque não somos donas de nós mesmas. Não podemos nos proteger da violência diária, mas devemos obedecer as regras que perpetuam essa violência. Óbvio, o caso dessa jovem que morreu prematuramente é muito, mas muito diferenciado, específico e, de certa forma, surreal. Me pergunto quantas vezes a família não deve ter pensado se seria realmente isso que ela queria e, ao mesmo tempo, se é humano lidar com uma situação assim, se seria justo perder mais vidas tendo a chance de lhes dar continuidade. Os comentários da matéria, porém, giram em torno da condenação do aborto e das “abortistas”, sendo que a ligação desse tema com o da notícia é mínima. Me lembra o tão recente caso do turbante, em que a maioria esmagadora de brancos (os que mais representam a sociedade midiaticamente falando) “debateram” apropriação cultural e “racismo reverso”, com suas diferentes ficções sobre de onde vem a cultura de amarrar um pano ao redor da cabeça ou de onde vem o tecido com o qual se faz o turbante, em lugar de assumirem o que negros reafirmam diariamente: que o racismo é enraizado, que são eles quem sofrem com isso, e não os brancos, a partir de um relato cujas provas não apareceram até agora.

Em suma, dificilmente chegamos ao cerne de uma temática, sobretudo quando é difícil não sair dos privilégios, das “piadas” ou de seus extremismos. “Racistas mesmo são os negros” e “abortistas merecem morrer, já que desejam a morte de inocentes” e vamos seguindo.