TW: “Shut Up And Dance”, Black Mirror, terceiro episódio da terceira temporada (não contém spoilers, acho, mas contém sinopse).

Certamente esse é o episódio que eu tanto esperava.

Todo mundo já assistiu O Show de Truman, aquela comédia dos anos 1990, com o Jim Carrey. Aquilo é, certamente, o mais próximo de Black Mirror, só que na minha época. Carrey interpretava um sujeito que havia nascido, literalmente, diante das câmeras. A vida de Truman era televisionada, era um reality show programado nos mínimos detalhes, só que ele não sabia. Porém, um dia, já na vida adulta, Truman desconfia de tanta perfeição ao seu redor.

Considero impossível terminar esse filme sem adquirir a paranoia de achar que estão lhe perseguindo, lhe observando. Com o avanço tecnológico, hoje em dia a maioria dos aparelhos que compramos vem com uma câmera embutida: os notebooks e smartphones modernos são assim. Eu sempre penso em Truman quando tiro uma foto para o Instagram ou quando abro onotebook e encontro essa câmera que raramente utilizo.

Há cerca de dois meses, li o depoimento no Facebook de um rapaz que estava em um restaurante comentando com a esposa que gostaria de comprar um determinado produto. No dia seguinte, promoções diversas sobre esse produto começaram a surgir em sua timeline. O rapaz disse ter ficado chocado com a falta de privacidade e eu já estava achando que aquilo era uma fanfic, até ele apresentar dados. Como, por exemplo, o fato de que o Google grava as nossas conversas, ainda que não tenhamos ativado o comando de voz. Pois é: isso realmente acontece e a gigante tecnológica se defende com a desculpa de que deseja aprimorar a sua tradução a partir de palavras captadas pelos usuários, assim, eles melhorariam, também, diversas ferramentas da empresa.

Quando você baixa Pokémon Go, o jogo pede os acessos da sua câmera e do seu GPS. O mesmo se dá, muitas vezes, com outros aplicativos, tais comoFacebook e Whatsapp. Perdemos completamente a privacidade? Quando e como receberemos a constatação disso? “Shut Up And Dance”, terceiro episódio da terceira temporada de Black Mirror propõe exatamente essa reflexão.

Eu tenho uma leve queda por adolescentes fora do padrão e Alex Lawther já interpretou Alan Turing jovem em O Jogo da Imitação, que também é uma história sobre tecnologia. Em Black Mirror, Lawther é Kenny, um rapaz que se vê refém do seu computador. Kenny trabalha em uma lanchonete, vive com a mãe e a irmã, é um tanto quanto introspectivo, mas é alvo de interesse afetivo de uma colega de trabalho. Até aí, nada demais.

Um belo dia, a irmã de Kenny pega o seu computador e, sem querer, instala um vírus. Kenny instala um anti-malware qualquer e se ferra, pois seu computador foi invadido por hackers com acesso a câmera de seu notebook, que decidem envolvê-lo em um jogo insano, depois que vêem Kenny masturbar-se diante da câmera.

Kenny recebe uma ameaça óbvia, via e-mail: “faça tudo que lhe exigimos ou vazaremos o vídeo para todos os seus contatos”. Eu, no lugar do Kenny, nem confiaria nessa gente, afinal, quem nunca fez o que ele fez? Mas estamos lidando com um jovem deslocado e sem nenhuma reputação significativa, e as chances de ser alguém, um dia, estariam minadas caso esse vídeo caísse na internet. Kenny entra no jogo desconfiando que jamais sairá dele.

Qual é o limite da privacidade? Onde começa a exposição? Por que temos tanto medo de assumir situações que todos cometem? E aquelas que são realmente perigosas? Logo Kenny percebe que o jogo envolve outras vítimas, em situações piores que as dele: gente que trai a esposa, gente que busca por pedofilia.

Você entra em Black Mirror, mas sai em Jogos Vorazes, é o que parece. Um Jogos Vorazes da era tecnológica, bastante possível, porém absurdo. “Shut Up And Dance” lembra muito “ The National Anthem”, o primeiro episódio da primeira temporada da série. Para quem a acompanha desde o início, esse é um revival quase tão interessante quanto o anterior, embora aquele primeiro episódio tenha me deixado sem fôlego, além do fato de ter sido determinante para que eu e muitas pessoas dessem continuidade: imagine você que o primeiro-ministro britânico recebe a notícia de que a princesa mais popular foi sequestrada. É só pagar o resgate, não? Bem, não é tão simples assim quando o pedido de resgate é uma solução bizarra: os sequestradores exigem que o primeiro-ministro faça sexo com um porco, na frente das câmeras, para que a cena seja exibida na televisão, em rede nacional. Em caso de recusa, a princesa será assassinada.

Em suma, depois de “Shut Up And Dance”, nunca mais olharemos para as nossas câmeras sem desconfiar se estamos sendo assistidos “do outro lado” do “espelho negro”, assim como Truman observava todos os espelhos da própria casa, desconfiado. E com razão.