Visão do inferno.

Mario Prata tem um livro intitulado Purgatório, que eu ainda não li, embora tenha um exemplar há bastante tempo. Eu quis esse livro depois de uma entrevista que ele concedeu ao Programa do Jô, anos atrás, que eu nunca esqueci e também jamais consegui rever (creio que não existe link para esse vídeo). Na entrevista, Prata explicou que o seu até então mais recente título era uma referência a Dante e parodiava A Divina Comédia. Ele deu explicações sobre o que seria o céu, o inferno e o purgatório, no livro. Se eu não estiver enganada (pois, reiterando, ainda não li a obra e estou puxando pela memória), o inferno, para o Mário Prata, é uma enorme estação de trem com um barulho absurdo de gente martelando em máquinas de escrever e um garoto gritando, bem alto: “pamonha de Piracicaba, pamonha de Piracicaba!”.

Minha visão de inferno é outra coisa.

Menino Caio é filho de policial e, por meses, adiei a pergunta fundamental que definiria os rumos de nossa amizade, caso positiva fosse: “menino Caio, você estudou em colégio militar?”.

Grazadeus, não. Antes de começar o ginásio, a mãe dele, do nada, resolveu que menino Caio faria a prova para entrar em colégio militar e, por sorte, ele não só foi reprovado como foi para outra escola e conheceu a pessoa que é o melhor amigo dele até hoje, menino Gabriel, que eu ainda não conheço.

Sério: eu odeio estudantes do colégio militar, embora saiba que não é culpa deles.

Quando eu era criOnça, na vizinhança dos meus primos, o garoto mais esperto da rua era o Júnior. Todo mundo gostava de brincar com ele, mas Júnior sempre voltava cedo para casa, pois precisava acordar na manhã seguinte para ir ao colégio militar. E, quando Júnior ia embora, a brincadeira acabava.

Muitos anos depois, com o ensino médio concluído em escola pública, inventei de estudar Vestuário em uma unidade do SENAI. O problema é que o prédio do SENAI ficava exatamente em frente a um colégio militar, lá perto do Bonfim. E eu pegava ônibus de manhã cedo.

A minha visão do inferno bem que poderia ser a ida ao SENAI: um ônibus sempre lotado de trabalhadores do Centro e estudantes do SENAI e do militar. Nós, uniformizados com a camisa pólo que era tão quente que eu usava sempre uma regata e só quando descia do buzu colocava a camisa da instituição por cima; eles, com todo aquele aparato do militar, incluindo boina, meia-calça para as moças e o escambau. E nos dias de chuva, com todas as janelas fechadas?

Mas não, o pior era a volta: meio-dia ensolarado e calorento, aborrecentes do militar fritando e derretendo, suados e suando, com toda aquela vestimenta, consequentemente cheirando muito mal; dividindo, espremidos, um espaço absurdo de tão minúsculo e quase tão lotado quanto na ida — essa é a minha visão de inferno. Você não consegue respirar num lugar desses, com essa gente.

A pior coisa do estudante de colégio militar é o respeito por essa ideia. Porque eles não tiram a boina ou pelo menos o casaquinho nem na ida, nem na volta. Eles suportam o calor dessa cidade tropical e abafada. Lá, com certeza, devem receber um treinamento para tanto.

Eu sinto pena.