De quantas mortes se faz uma vida ?

Nina Leão
Sep 7, 2018 · 6 min read

É provável que você já conheça a metáfora da águia, tão antiga quanto o rascunho da Bíblia, como diria o meu pai. Mas, vou contá-la assim mesmo. Existe uma lenda antiga, recriada ao longo da história por diversas culturas, que conta que a águia, ao notar os sinais da idade, sobe ao cume de uma montanha altíssima e bate o próprio bico no chão, de livre e espontânea vontade, até que ele caia totalmente. Isso tudo vivendo a dor de cada batida.

Você deve estar se perguntando: por que em sã consciência a águia toma essa atitude tão… radical? Bom, a história conta que é para que seu bico, gasto pelo tempo e agora incapaz de pegar novas presas, possa morrer e um novo possa renascer, novinho em folha. O antigo bico já não serve mais, não consegue agarrar animal algum (assim como suas garras, já não fazem nem cócegas). Suas penas se tornam pesadas e alçar novos vôos vai ficando cada vez mais difícil. E é aí que ela arranca o bico. Sem apegos, nem cerimônias. E, não satisfeita, depois que o bico cresce, ela o utiliza como ferramenta para arrancar todas as garras e penas, uma a uma, em uma transformação completa. Novamente, sem apegos, nem cerimônias — ainda que com algum ritual.

Afinal, vamos combinar, quais são as chances de sobrevivência da águia na selva sem seu bico, suas penas e garras funcionando corretamente? Como vai voar, se alimentar? Morrerá, certamente, por outro predador ou até mesmo de fome, se nada for feito. Ela não tem muita escolha. Ou morre fisicamente, ou morre simbolicamente. Então, ela opta por se recriar, decidida, resistindo à dor (que vem de brinde com todo e qualquer processo de transformação), sem que isso a impeça de realizar o que precisa ser feito.

A águia sabe que para continuar vivendo precisa passar por algumas mortes. Nascer e morrer, morrer e renascer sempre lado a lado, compondo partes diametralmente opostas do ciclo natural que compõe a existência. A começar com a nossa própria vida e morte: não sabemos de onde viemos ou para onde vamos, só sabemos que nascemos aqui nessa Terra e uma hora vamos deixá-la. Sem chances para apegos; já as cerimônias são liberadas para os que ficam.

A real é que o nascimento e a morte são as únicas certezas para qualquer ser vivo: sabe que nasceu e sabe que vai morrer. Sabe por instinto. Tudo na natureza é assim, tem nascimento e tem morte. E, devemos nos lembrar de que o Universo conversa com a gente nas entrelinhas. Os fractais. Devemos nos questionar por que o Universo faria as coisas dessa forma, cíclica, costurando vidas e mortes em tudo que se manifesta, inclusive nos níveis mais simbólicos? Não é possível que tudo na natureza funcione dentro do ciclo vida-morte e que isso não faça parte de um dos grandes segredos de existirmos. Só devido a tamanha recorrência, já vale nossa reflexão.

O grande problema é que não falamos sobre a morte. Tipo, nunca. Quando alguém que gostamos perde alguém — uma mãe, um pai, um amigo — não sabemos o que fazer, não sabemos o que falar, não sabemos nem se devemos falar alguma coisa. Somos tão ~ evoluídos ~ pra tantos assuntos e completamente ignorantes quando o assunto é morte,ainda que ela perpasse a vida de todos em algum momento da existência.

Nossa cultura ocidental trata a morte de maneira distorcida e aquém da sua verdade: transforma em ponto final o que é uma vírgula, por pura superficialidade; em estranhamento o que deveria ser natural; em tabu o que é a nossa única realidade.

Na natureza vida e morte se perpassam tão intensamente que ela simplesmente não existe. Quando morremos, nosso corpo físico imediatamente já assume uma nova função na natureza: viramos matéria-prima para o solo, fonte de vida. Há quem diga que devolvemos tudo que consumimos durante a vida para a natureza quando morremos — não acredito nisso, consumimos demais, não deve dar pra pagar assim tão fácil, só morrendo, sem devolver nada em vida. De qualquer forma, o ecossistema é lindo. Tão lindo que faz ver que a morte é indispensável para que a vida continue acontecendo, brotando do solo, pulsando, compondo o ciclo. Lavoisier já sabia há muito tempo: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

[Isso só falando no nível físico. Espiritualmente, sinto-me conectada aos meus entes que partiram quando os falo em orações, quando sinto emoções incontroláveis ao lembrar-me deles, ao sonhar com eles. Ao meu ver, vira uma forma diferente de me relacionar, mas, fim? Fim de que? Do amor, da relação? Do corpo físico, talvez. Mas, só isso mesmo. Da presença da alma, nunca.]

Além disso, a morte está presente em nossa vida até mesmo nos níveis mais simbólicos. Morrer não se limita ao suspiro final da estrutura de carne: morremos muito em vida.

Morremos com o fim de uma relação, com a mudança de emprego, com o término do período na faculdade. Morremos com o bar que fechou, com o momento que se desperdiçou, com o mendigo que nos tocou com seus olhos tão humanos que chegam a doer. Morremos com o sangue entre as pernas no fim de cada ciclo, com a entrega de corpo e alma àquela pessoa que não correspondeu; com o sol que se põe no fim do dia, com a adolescência que termina (a fase mais credo-que-delícia da vida). Morremos ao reconhecermos nossas falhas, ao mudar de opinião, ao nos apaixonarmos, ao tomarmos uma decisão que exige coragem.

Tudo que nos transforma, nos mata — e nos recria.

O medo de morrer, na real, é o medo do novo, afinal, o que é a morte senão transformação? Mais uma delas — ao meu ver, a mais dolorosa, rasgada e incompreendida por nós, humanos, tão cheios de apego, tão cheios de humanidade.

A morte física ou simbólica de algo, quando negada, pode repercutir gravemente em nossa personalidade e em nossa percepção de vida. Precisamos falar sobre a morte para conseguirmos enxergar as pequenas mortes que enfrentamos em nossas vidas, de forma natural, retirando os apegos, ainda que para isso seja válida alguma cerimônia.

Quando começamos a encarar essa sequência de nascimento e morte com a devida naturalidade, conseguimos fazer as pazes com as mudanças, com os fins, com os recomeços — e com o caminho do meio, que é a vida que pulsa entre um nascer e um morrer. Daremos um adeus bem dado para a resignação, apegos, para nossas paralisias e valorizamos mais as delícias que só existem no meio do caminho, na vida que tá rolando agora, no exato momento em que você lê este texto.

E, não basta estar pronto para morrer no dia a dia em nossas mortes simbólicas. É preciso estar pronto para para matar com o próprio punho os ciclos que precisam terminar, as questões que precisam cessar, as falhas que passaram da hora de serem abandonadas.

É preciso ter coragem para passar por esse processo que costuma ser doloroso (não é a toa que a águia é o símbolo supremo da coragem). E, ela é também símbolo da força para muitas culturas; Para os egípcios, representa a vida eterna. Para mim, os egípcios têm toda a razão nessa simbologia: a águia representa a mudança, transformação, morte e vida. E, a vida eterna, ao meu ver, é essa vida que nunca termina, só muda de forma, se transforma o tempo todo. Na real, quando pararmos de enxergar fim nas mortes, nas mudanças e começarmos a ver recomeços, novas formas daquilo existir e de se relacionar com aquela vida, veremos que a morte é uma ilusão e que sempre estaremos vivos. E, mais do que isso, seremos sempre jovens, eternamente. Afinal, existe alguém mais jovem do que aquele que acabou de (re)nascer?

Nina Leão

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