Todo amor merece um fim decente
“Estou velando um amor” — foram as exatas palavras, tristes e aliviadas que saíram da boca da minha amiga naquele fim de tarde de agosto.
Ela me mostrou um poema fabuloso que escreveu após ter uma conversa definitiva com um ex-grande-amor. Um daquelas conversas que parecem ser uma faxina na alma, limpando até os cantinhos esquecidos. Aquelas conversas em que há entendimento, pedido de perdão e gratidão mútua pelo que viveram, ocasionando no sincero desejo de que o outro seja feliz, ainda que bem longe. A conversa responsável pela missão de fechar a dolorosa tríade amor-ódio-nada que permeia as histórias de grandes amores com fins mal resolvidos.
Ok, pode ser que vire um nada vestido de carinho e dos melhores votos bem-intencionados para aquele outro ser, mais ainda é um nada. Com cor de nada, cheiro de nada e essencial para que se viva, como água. Um nada absolutamente essencial.
Vira nada porque é só a assim pessoa deixa de fazer parte da nossa vida de verdade. Fazer parte da vida de alguém está longe de ter como premissa estar presente no momento presente, principalmente fisicamente. Quando ainda é amor ou ódio, o outro está sempre lá. A pessoa aparece em forma de mágoa, de música, de sonho. De ressentimento, de arrependimento por não ter entendido o fim direito, não ter sido direito ou não ter sabido amar direito. Muito direito pra tantas sinuosidades que envolvem uma complexa relação a dois.
O ódio, a mágoa são formas de tentar reter o amor, colocar reticências, desejar compreender o que não foi compreendido até então. Quando vem o nada, não há mais o que fazer, não tem nada, simplesmente acabou. Fim de história, fim de papo, fim com ponto final bem marcado, como esse que fecha essa frase.
Nenhum amor acaba sozinho, os dois lados tem culpa no cartório. E, no fundo todo mundo sabe disso. Na fase do ódio, da mágoa, não conseguimos enxergar nossos erros com clareza. Mal compreendemos a nós mesmos, que dirá o outro naquele momento. Muitas vezes, nem damos a chance para isso. O outro lado se torna um outro mundo, tão inacessível e estranho aos nossos olhos de fim-não-resolvido, extremamente míopes.
A real é que todo amor merece um fim decente, digno. Só assim ele pode virar nada em paz.
Quando vivemos uma história com alguém que envolva sentimento e entrega, por mais breve que seja, já se trata de uma história importante para nós. Como em qualquer narrativa, é certo que os amantes conseguem identificar o começo, o meio e o fim de um romance, emaranhado em clímax e reviravoltas (ainda que sejam abstratos e de diferentes perspectivas para cada um dos lados. Mas quem disse que uma narrativa só tem um sentido possível?).
Amor e narrativa se entrelaçam desde sempre. A narrativa perpassa o amor, o preenche de sentido lógico. Narrar é uma necessidade humana, já diria o comunicólogo e estudioso de narrativas, Luiz Gonzaga Motta. E, acima de tudo, Motta — eu diria — narrar é uma necessidade vital para o humano que ama um outro humano. E, como toda narrativa, precisa de um ponto final. Um que seja decente, para não terminar tipo um filme ruim que a gente se arrepende de assistir. Mas, como um fim decente, à altura dos sentimentos provocados por aquela história de amor.
Recentemente, fui assistir a uma peça chamada “Não vão além”, que falava sobre relacionamentos. Uma das características da diegese da peça é que os personagens ficam apenas 9 meses juntos em seus encontros e, em seguida, têm de se separar, em uma espécie de “morte” simbólica. Em minha interpretação, uma separação, como qualquer outra, inevitável, seja pelo fim ou pela morte (que consideramos ingenuamente como o fim definitivo). Em uma das cenas mais cativantes — que me fez derramar dezenas de lágrimas — duas personagens combinaram que quando se separassem, ficariam gratos pelo encontro que tiveram. E, que quem ficasse arrumaria o outro da melhor forma possível, com carinho e cuidado, para que o fim mantivesse a beleza do encontro. Assim aconteceu. Com uma simplicidade avassaladora, a personagem “que fica” arruma a roupa do seu amado, dá um sorriso e o permite partir. Grato, visivelmente grato.
Todo amor merece um fim assim.
Por isso essas conversas-faxinas-da-alma libertam em casos de amores com fins mal resolvidos: elas atuam como um ponto final. Um decente. Com espaço para ouvir, para dizer, para desatar os nós que um dia foram laços, virando aquele nada bonito como a água que a gente tanto precisa para seguir vivendo — pra seguir em frente de verdade.
Minha amiga está velando um amor que é defunto há mais de um ano. E só hoje ela o percebeu morto. Ainda que ele já estivesse fedendo e se decompondo, ela se recusava a reconhecê-lo morto, porque ainda era muito vivo dentro dela na forma de decepção, raiva, dúvidas. Hoje ela percebe que esse amor era feio assim, cheio de bicho e com cheiro de mágoa, não porque não havia sido lindo e vivo antes, mas porque já morreu. Há muito tempo. Mais do que isso, suplica para ser enterrado e poder fazer do seu corpo morto um adubo, material orgânico para a terra do coração dela, que pode plantar flores de diferentes cores, arte e, quem sabe, um novo amor.
E assim ela o fez. Tirou o morto, desocupou o espação que ele ocupava em seu coração e plantou uma bela poesia. Em ode ao tanto que viveu, encheu-se de si e proclamou verso por verso, fazendo o melhor velório possível para um grande amor que morreu: transformou-o em escrita.
