verde

gosto mesmo do brilho de curiosidade que preenche seus olhos quando me conta que seu maior sonho é ter um passaporte colorido. 
e também do brilho verde que povoa os seus olhos de canto arabescados — cheios de vontades — quando observam cada pedaço de pele meu. e aprecio a delicadeza do teu olhar quando fixa a pinta da minha nuca e enxerga nela um planeta ou um novo mundo que você quer descobrir com essas mãos desastradas.

e com o passar do tempo, me perco no gosto do brilho claro que tem os seus olhos quando você os levanta e me diz com as mãos apoiadas no rosto que gosta — e seu gostar é sempre muito — de comer pão de queijo em dia de chuva e de tirar as meias para dormir. 
e rio baixo com a chuva que cai lá fora e lembro que gosto mesmo do brilho dos seus olhos verdes quando ficam parados em algum ponto, deixando transparecer todo o esforço que isso que você chama de memória faz ao me contar um dia, um mês, um pouco da sua história. 
e gosto. 
gosto tanto que observo toda a invasão de curiosidade que preenche os seus olhos enquanto você me conta que seu maior sonho é ter um passaporte marcado de novos cheiros, de novos lugares, de novas palavras, de novas plantas, de novas receitas, de novas cidades, de coisas que você ainda não conhece, mas que fala tanto sobre que qualquer lugar já parece sua terra natal. acho que são seus olhos verdes que abraçam o mundo todo nessa sua inquietação que me faz pensar isto.

e sim, menina, eu gosto mesmo desse brilho verde dos seus olhos enquanto você me assiste tentar cozinhar alguma coisa que você faria dez vezes mais saborosa, mas finge com esse olhar cheio de recortes esverdeados rajados que a receita está saindo como o anotado, melhor que a encomenda. 
e pode existir o mundo inteiro, dois oceanos, pão de queijo, dia de chuva, a sua testa enrugada que eu vou seguir gostando mesmo desse brilho verde que meus olhos refletem toda vez que encontram os seus.