Hoje olhei com ternura e uma atenção especial pra essa maquina que me foi dada pelo meu avô, e que embora tenha pouca utilidade prática, carrega pra mim um simbolismo imenso e muito bonito. Lembro de começar a escrever aos 12. Não -apenas- escrever, a realmente escrever. Na época, tive um trabalho da escola que perguntava alguma coisa sobre meus heróis. Não lembro o que escrevi, mas nunca vou me esquecer do que a minha professora de português na época disse, (um beijo no coração pra Celeste, que tanto fez por mim): ‘’suas palavras são especiais, não se separe delas’’. Eu nunca tinha prestado muita atenção na minha relação com as palavras até esse dia que posso dizer com convicção que mudou minha vida e fez de mim quem eu sou hoje.

A escrita viu todas as minhas paixonites, romances, amores; até começou alguns. Quando o mundo me pesou os ombros, me envolvi em cada letra, palavra e papel como quem se coloca nos braços da pessoa-amada. Por vezes não consegui chorar e a minha única forma de amenizar a angustia foi colocar no papel. Sinto como se a escrita fosse uma forma de tornar paupável parte da minha alma que tão grande e intensa, me tira os pés do chão; com as palavras vejo o sentido naquilo que dentro de mim é abstrato. As palavras são a conexão mais forte que eu tenho comigo mesma, a conciliação de toda a minha inteligência com meu sentimentalismo.

Não tenho dúvida sobre a mutabilidade do mundo, e certamente não tenho dúvida sobre a mutabilidade de mim. Tudo que eu sou é resultado do que fui e previsão do que serei; escrever me ajuda a manter o registro. E, quando me perco de mim, no que escrevo encontro o amor que existe mim quando me sinto desesperançosa, encontro a dor e a fragilidade quando me acho invencível e a força que existe em mim quando me sinto incapaz. Escrevendo eternizo também tudo e todos que me são caros o suficiente pra extrapolarem o meu coração e vazar pelos dedos.

Não acho que tenha a pretensão ou a técnica que leva me dizer escritora ou poeta; mas, com certeza, sou alguém que leva as palavras como forma de resistência. E espero que elas sejam usadas cada vez mais pra levar toda a informação e lirismo do qual esse mundo precisa.