A arte de escolher
Edvaldo nunca havia sido um homem de escolhas.
Aos dezoito anos alistou-se no exército para não precisar fazer escolhas no vestibular. Aos vinte e três casou-se com a filha de um amigo da família, e ao gerar herdeiros, deixou que a esposa nomeasse todos eles.
Todas as blusas em seu armário eram impecáveis no mesmo tom de azul, exceto pela camisa preta, exclusiva para enterros e funerais. Deus o livre de escolher a cor de uma roupa. No cardápio do almoço, sempre o mesmo prato: Edvaldo almoçava sempre em casa, pontualmente às onze e meia. Sabia metodicamente o que haveria em cada dia da semana.
Aos trinta e oito anos foi testemunha de um assassinato. No depoimento não soube dizer se o cúmplice era alto, baixo ou careca, nem indicar o culpado entre os principais suspeitos. Aos cinqüenta e três seria promovido e transferido para uma cidade a sua escolha. Ele preferiu se aposentar.
Desgastado pelo tempo e já cheio de manias, foi aos setenta e sete que Edvaldo encontrou-se prestes a fazer a primeira escolha em muitos anos. De pé e angustiado, encarava uma jovem do outro lado de uma bancada. Suava de nervoso, e travado, não sabia o que fazer.
A moça, já impaciente com o velho, repetia a mesma pergunta pela sexta ou sétima vez. Preocupou-se. Era nova por ali e não podia ter problemas em seus primeiros dias. Entoou as mesmas palavras, de novo e de novo. Será que aquele senhor seria surdo? Desesperado, a boca de Edvaldo até se articulava, mas nenhum fonema conseguia sair. Ele era incapaz de olhar para frente, suas mãos tremiam e seus olhos nervosos já estavam cobertos d’agua.
Depois de um longo suspiro, a moça insistiu e delicadamente decidiu perguntar uma última vez:
- Senhor, açúcar ou adoçante? Senhor?