A luz do quarto

Eu já tinha passado do estágio de fingir sobriedade. Mas estranhamente estava apreciando aqueles nossos últimos momentos silenciosos juntos. Ainda que não conseguisse mais encarar seu olhar baixo e brilhoso que refletia as coisas difíceis de ouvir que eu tinha acabado de te amontoar.

Queria descobrir se você soube, pela minha seleção de palavras, que estive a estudar e estruturar meu discurso durante todos os dias que você me deu (intencionalmente ou não) para pensar. A carga era pesada mesmo, mas tentei ser precisa e cuidadosa, como quem empilha ouro. Nunca vou saber se você me lia tão bem, ou se ainda estava me descobrindo naquelas frases assim como eu estava surpresa e me autoconhecendo com aqueles meus sentimentos estranhos.

Talvez eu estivesse pensando no último pão que fizemos, que você nunca me ensinou a fazer cerveja, que queria ter ido à sua cachoeira mais vezes, que (apesar da promessa) você nunca arranjou um skate para andar comingo no eixão ou até que nunca conseguimos ir à chapada. Mesmo sem conseguir abrir mão da sua companhia, eu olhava na direção oposta. Qualquer que ela fosse, acho que eu só queria evitar te cobrar com o olhar mais uma vez algo que não fosse mais um pedido de desculpas. Afinal, já tínhamos concordado entre sorrisos matinais que o silêncio era como o espaço vazio da tela. Faz parte da composição, deve ser apreciado em vez de ser preenchido sem propósito ou genuinidade.

A direção oposta, no caso, não era geograficamente oposta. Mas era para fora do carro, através da fumaça e do escuro sereno gelado, atingindo uma janela alheia qualquer. De repente, uma luz no quarto dentro dessa janela se apagou. Mas só percebi que havia uma luz acesa nesse quarto quando ela se apagou. Na verdade, como eu poderia perceber a presença de algo com a sua posterior ausência?

Quando te percebi, você arregalou os olhos e arregaçou um sorriso em uma expressão tão epifânica quanto assustadora. E você justificou tudo isso dizendo que eu decifrei (dentro da sua cabeça) um capítulo de um livro. Fico me sentindo super filósofa até hoje.

Assim me despedi de você. Acho que não posso dizer "do nosso jeitinho", pois não sei se é autorizado considerar que isso ou qualquer coisa nossa um dia existiu. Mas foi uma despedida sem adeus. Apenas cavada por elucidações sinceras sobre responsabilidade afetiva, sublimada com ebriedades existenciais e arrematada com longo abraço que queria dizer tanta coisa em pouco tempo, mas não precisou pronunciar nada apesar de ter insistido em querer ser beijo.

Depois você me enviou uma foto do capítulo do livro e de algum jeito docemente vil acrescentou que me sentiu como se eu fosse a luz no quarto.

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