Verdade

Você nunca será bom o suficiente.

Você pode falar inglês fluente e ter alemão intermediário. Você pode praticar exercícios três vezes por semana, beber dois litros de água por dia, contar as calorias do pacote de biscoito.

Você pode ter voltado a desenhar na semana passada, por uma motivação idiota ou de auto-ajuda na televisão ou de passarinhos cantando na janela. Você pode transar com sua namorada e mais tarde com outras duas meninas que você não tem coragem de chamar de amor, sem nenhuma jamais saber.

Você pode ter o guarda-roupa arrumado e a casa varrida. Você pode detestar passar o dia inteiro na cama. Você pode ser proativo, inteligente, comunicativo e todas aquelas qualidades expansivas que colocou no currículo.

Você pode ter recebido juras de recomendação. Conhecido pessoas incríveis que não sabem seu nome. Pode ter passado no vestibular, aberto a própria empresa, viajado o mundo.

Você não é nada disso.

Você se lasca pra conseguir pagar o curso comunitário de inglês, que hoje em dia não é mais luxo, e mesmo assim sabe que não vai conseguir atestar proficiência para viajar a primeira América. Você mal tem tempo para pensar durante o dia, quiçá dedicar um pouco para exercícios. Você come qualquer coisa que vê pela frente e deixou de se pesar há algum tempo, por falta de vaidade, medo, ou mesmo desmotivação.

Você não vai voltar nem pro desenho nem pro yoga, você tem medo de começar e medo do que vão dizer, medo de não ser adequado, medo de perder tempo e medo até de mandar um e-mail perguntando o horário das aulas. É mais fácil não começar porque se você nunca começar, nunca vai dar errado.

Você tem um bocado de inseguranças sobre você mesmo.

Dizem que é sintoma de depressão, ansiedade, síndrome disso ou daquilo, estafa, mas você não descarta a procrastinação, num ciclo interminável de culpa-arrependimento-culpa. E você tem medo de completar seu currículo depois do que seu último chefe disse sobre você.

As juras ficaram nas juras. Cada incrível em seu quadrado, você num círculo. Você não é um sucesso e, embora por um lado se sinta a vontade com seus vinte e poucos anos, tem medo de perder o timing. Por outro, você sabe que precisa fazer alguma coisa.

Mas não consegue.

A sua expectativa é mal captada de falsas promessas e a frustração sempre é do tamanho da cobrança que você mesmo se colocou.

Você não precisa ser bom o suficiente pra ninguém. Você precisa respirar.

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