ASSOA
- Oi, meu nome é Samara, tenho 14 anos. Teria, se estivesse viva.
- Oi, Samara.
Toda quarta-feira à noite é assim naquela sala comercial fria num prédio antigo na rua Belfort Roxo, em Copacabana. Ali funciona a sede da ASSOA — Associação dos Seres Sobrenaturais Anônimos –, que promove este indispensável grupo de apoio.
- Eu tenho o feeling de que cada vez que os switchers migram para outra social network, eu perco todo o trabalho de consolidação da minha brand image. Então sou obrigada a estudar outros cases e mudar meu target para tentar um instant feedback — desabafou Samara, muito antenada, como lhe é característico.
- Peraí — o Homem do Saco sempre foi um pouco lento –, você morreu com 13 anos e suas mensagens começaram a circular há um bom tempo já. Como você continua com 14?
- Homem do Saco! — tentou interromper o ET Bilu, sempre sensível ao bem estar alheio, mas foi em vão: Samara já havia começado a chorar desconsoladamente.
- É só que a conta não fecha, gente — tentou justificar o Homem do Saco, sob olhares de censura. O caos, no entanto, já havia tomado conta do lugar. ET Bilu e a Loira do Banheiro tentavam acalmar Samara, que chorava cada vez mais alto. Os outros falavam ao mesmo tempo, sempre em tom recriminatório ao Homem, até que o Fantasma do Rebaixamento conseguiu tomar a palavra.
- Olha, eu até acho que o Homem do Saco errou na abordagem, mas ele tem razão em um ponto. Nós temos que ser verdadeiros aqui, senão o grupo perde o propósito.
- Mas nem sempre as pessoas estão preparadas para falar logo de cara — disse a Loira do Banheiro, ainda abraçada à soluçante adolescente morta.
- Eu discordo, Loira…
- E, por favor, não me chame de Loira. Isso é objetificar as mulheres sobrenaturais com uma questão fetichista. Meu cabelo não me define. Por que não Mulher do Banheiro? Se eu resolver pintar o cabelo deixo de ser uma assombração?
- Ai, meu saco — resmungou o Homem do Saco, embora ninguém soubesse ao certo a que ele se referia; se à parte de sua anatomia ou ao trapo de pano que levava a todo lugar.
A discussão continuava acalorada, enquanto o Chupa-Cabras tentava, com seu conhecido mau humor, encontrar as razões para a reunião ter se tornado uma desordem completa.
- Sempre que o Dragão da Inflação falta, as coisas desandam. Só ele impõe respeito.
De fato, o Dragão da Inflação era um ser muito querido por ali. Quando havia algum problema, não hesitava em gastar seu tempo tentando amenizar a situação e evitar constrangimentos maiores. Como daquela vez que o Papai Noel fez um assustador discurso a favor da redução da maioridade penal e o Dragão, antevendo uma briga generalizada, explicou que aquele era um grupo apenas para seres sobrenaturais e não para qualquer lenda, expulsando o velho gagá dali. Só o Boto Cor de Rosa que não perdoou a intervenção do Dragão, mas, afinal, o Boto sempre foi muito de direita. Inclusive andava faltando aos encontros por conta de um tratamento de pele para se tornar o Boto Verde Oliva.
Porém não adiantava chorar sobre o leite derramado na manga. O Dragão andava muito atarefado com os negócios. Business, babe, como ele dizia. E o papel de mediador coube mesmo ao ET Bilu.
- Vamos conversar, pessoal. E você?
- Sim.
- Você acha que a galera exagerou com a Samara?
- Sim.
- Então você acha que o Homem do Saco deveria se desculpar?
- Não.
- Não? Por quê?
- …
A Loira, quer dizer, a Mulher do Banheiro interrompeu.
- Ô, Bilu, tu sabe que não dá pra fazer perguntas complexas pro Charlie Charlie, né?
O Homem do Saco resolve, então, dar um fim à confusão e levanta, indo em direção à Samara.
- Poxa, Samara, me desculpe se eu fui insensível, tá? Não foi minha intenção ofender. Eu prometo que você vai ser bem recebida por aqui.
A menina morta enxuga as lágrimas e os dois apertam as mãos, dando continuidade ao encontro. No entanto, por mais que se tentasse dar a impressão de normalidade, o climão já estava instaurado: Samara mentia a idade.