Ano novo não é especial do Roberto Carlos

Não foi o que o tempo fez com a gente, mas o que fizemos dele. Todos os anos chegamos a esse ponto, com confraternizações, rituais, comida em excesso que vai acabar azedando, amigos secretos e presentes. Tudo uma eterna repetição. Lá vamos nós vestidos de branco, com especial do Roberto Carlos e uva passa no arroz, inclusive gosto, da uva passa. Repetição, eterno retorno, não tudo, é claro. Ela está sempre ali, a ilusão que a passagem para um novo ano, por si só, renove tudo.

É difícil perceber ou aceitar que a contagem do tempo é uma invenção para controlar a vida, organizar o caos, dar o grau na cagada. E se não houvesse contagem? Se os relógios, analógicos e digitais, se suicidassem coletivamente? Será que as palavras dariam conta da responsabilidade de gerir o equilíbrio sozinhas? Agarrados ao relógio seguimos, enraizados e mergulhados em sua mecânica. Dá até para ouvir, nosso coração bate influenciado pela bateria minúscula. Já era! Perdeu, playboy.

Nos últimos momentos do ano presente, vamos desenhando e coroando janeiro como o mês salvador, a tela em branco, o nosso ano! Vocês já estão sentindo essa “vibe” positiva? Calma aí, a pressão das expectativas são sentidas só em fevereiro, na ressaca dos espumantes, cervejas e catuabas dos rituais de transição. Dá tempo de ficar relaxado ainda. As dívidas ainda estarão suaves em janeiro, os amores ainda borbulhantes.

Será mesmo que nosso novo ciclo tem que surgir obedecendo tal ordem?

Temos que esperar a ilusão da recontagem do tempo para refazer a própria trajetória? Ah não, gente! Chega de ver fogos. Ei, vamos quebrar esse mecanismo. Eu, você, a geral. Há de se subverter os relógios, há de se gozar com os ponteiros, há de se quebrar tudo, cutucar os ouvidos com eles, dar novo significado ao tempo, ousar, e desafiar a sina castigada pela contagem. Quem é que manda aqui mesmo, hein? Chega de classificar a felicidade em virada de ano, réveillon é o caralho, palavra norte americanizada. Aceitemos o recado do nosso corpo, que está constantemente em ciclo de mudança, nunca para, não espera 365 dias para se renovar.

Ontem mesmo você pintou os cabelos e hoje já tem um milimetro de raiz crescendo, implacável. Sua barba espeta quando a gilete recém acabou o trabalho. Faça seu pequeno ano novo agora mesmo, todo dia, a cada piscada. Já que a gente acha que domina o tempo, vamos fazer dele um negócio mais solto. Hora de acordar, já chega de dormir todo esse tempo, não acha? Os segundos são horas e as horas são séculos, mas o Roberto Carlos esquece sempre de falar isso.

*Texto publicado originalmente no meu blog Gatatotem.

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