Deita no meu colo mais uma vez?

On the Waves of Love, Edvard Munch, 1896.

A cama de casal coube a ferida antiga, essa que não sara, de acreditar em amores como implosões seguidas de construções monumentais.

Nesse quadrado te comi com as mãos, as pernas, o sexo. Aprendi a relaxar no seu colo essa cabeça pesada de fantasmas, e a sua mão navegou nas minhas dobras, seus dedos sentiram meus pelos encravados, sua língua lambeu meus lábios ressecados, e a vida gritou na gargalhada, no gemido, no choro. Pulsou na vulva e no coração o medo do eu te amo tímido que você disse embaixo do guarda-chuva, que viu de cima nosso encontro.

Nosso mundo: um quadro de Munch, uma música do New Order, um desaforo, uma facada, um sorvete.

Uma agulha entrou no pescoço, gelou o corpo inteiro. Os pés incharam, reviraram os dedos. Atrofiei na rua, quando naturalmente você tentou fugir, e correu longe. A febre ardeu o osso. Os músculos repuxaram. O olho em código morse, não deu conta de ver a situação com esperança, vai ver nunca teve.

“Eu não te amo mais”
“Conheci outra”
“O amor mudou”
“Você era o que sonhei na adolescência, mas não sou mais essa pessoa”
“(silêncio)”

E a cama de casal foi se enchendo, super lotando da repetição dessas orações, como um muro pichado várias vezes. Chegaram então as imagens, os frames dos abraços, das noites dormindo com a chegada do sol (distraídos pela paixão do novo). Os discos intermináveis como rituais.

E éramos tão em branco, mas tão preenchidos um do outro. A cama ainda cabe as posições, todas, as feitas, as que não deram tempo. os biscoitos que te fiz, as cartas que mandei, as cócegas. No canto, abraçada ao lençol, acuada, toca death with dignity, vejo nós dois ocupando a beirada da cama, é a última vez que seu sexo desaparece no meu, ali sei, exatamente ali, é um adeus. Me visto, vou para casa. A cama de casal agora está cheia de fantasmas, mais um. Mais um. Mais um. E mais um. E o mundo mudou aqui, girou, e os fantasmas ficaram. Deita no meu colo mais uma vez?

E de longe vejo uma boca enorme, que diz: Não.