Esqueci seu rosto enquanto escrevia

Fechou meus olhos, não consigo me mover. Prometi que esse seria o último pensamento sobre você, prometi ao telefone, sabendo que o destino era burlar a promessa, que não levaria seus demônios agarrados nos braços. Novamente ouço sua voz e vejo o rosto que a ambição moldou, minhas memórias são meu patrimônio, mesmo carbonizadas.

Mimeticamente você vestiu a pele salgada dos seus exemplos masculinos. Pai e padrasto, amou um e odiou o outro, na sequência. E nenhum foi de fato o que foi na sua mente, nos seus enredos e causos, que costumavam empolgar e dilacerar quem ouvia detalhe por detalhe. Contou para as mulheres que teceram sua vida, todas capturadas em poucos dias pela melhor capa de Oliver Twist, sapato esfolado na fotografia sépia. Mulheres, a categoria que você culpou desde teus primeiros erros, e nessa manhã, em minha defesa, digo que em algum momento amei sua risada estranha. Para depois me decepcionar para sempre por tudo que gravastes na minha pequena trajetória, de quem só agora entendeu o passado, como uma velha história cheia das incríveis metáforas.

Asfixiada pelo medo de dançar melhor no furacão. Desolada e paralisada, como quem assiste sua própria autópsia, cruzei com as braçadas mais fortes o esgoto daquelas palavras da última vez em que nos falamos. Suas ameaças de suicídio. Não tenho mais medo dos diagnósticos de câncer forjados, não sou como você, que vaga na espera de um novo caminhão para culpar pelo atropelamento que já te aconteceu.

Sua voz não parecia tão grave, podia sentir meus dedos mexendo novamente, fui me esticando, nascendo como quem explode dia pós dia, o big bang de onde saíram as minhocas. Como quem recita um poema metralhadora, atirei sem pausa todas as palavras naquela ligação, desliguei para respirar.

Andando ao seu lado, atravessando a rua. Nós em silêncio sorrindo, lá no fundo das sombras dos meus passos refeitos na madrugada, ainda existe você. Procurei e achei em muitos, e todos me chantageavam tão bem, era assim que eu sabia viver, cedendo aos caprichos dos outros. A cada jogo emocional via você, assim sabia que estava no caminho certo. Seu olhar torto e o jeito perturbador ia moldando minha escrita, meu jeito de piscar e humilhar. Mimeticamente ia tentando ser você, para que um dia pudesse ser completa, aceita. Tatuei no braço o papel que era seu e ficou pela metade, mas que papel é esse? Parece uma palavra tão oca, como se fosse uma cabeça falante com o interior oco. Pai. Soava estranho e voltava mais alto com o barulho da sua mão enorme me espancando.

Não sei por onde anda, não sei mais nada. Apaguei com corretivo, sei que está lá por trás do borrão mesmo assim. Seu rosto meio esticado, a voz arranhada, o português quase soa russo, Dizem que um dia serei sua tutora, me apavora a ideia de cuidar de quem quase me roubou o melhor da vida, a vontade de continuar. O dedo bate forte na tecla, apago o que um dia eu quis dizer, para sempre. Fecho os olhos, dessa vez consigo me mover.