Fake Plastic Lar

Esqueci de tanta coisa. Esqueci mesmo. Analisando melhor o esquecimento concluo que lembro em detalhes, mas o coração reluta em voltar, porque voltar é reencontrar, perceber que não superei, que não sou a fortaleza que arroto. Parecia um quarto enorme, com meus livros, cds e o velho computador encardido, que me conectava com o mundo, com gente estranha, que pareciam ser minha verdadeira casa. Hoje mal cabe meu pé, o quarto foi lavado e encolheu. Meus pensamentos, esses não cabem mesmo. Depois que se rompe, seu lar nunca mais será seu, por mais que digam “ei, a casa é sua”, bobagem.

Internet discada, uma semana para baixar um clipe ou uma música, disco inteiro era um luxo que não me pertencia. Com toda a tecnologia do meu cubículo ainda me sobrava tempo para colecionar papel de carta. Cartas para amores impossíveis, pessoas que hoje odeio ou que se tornaram (ou sempre foram) pedras de gelo. Esqueci o quanto escolhia amar sem me importar com reciprocidade. Fracasso, era minha mochila, só moi sabia o peso. A solidão castigava, mas a frustração detonava. Esqueci que um dia eu quis tanto “adultecer”. Parece piada, de péssimo ritmo e gosto.

Com um pedaço generoso de bombril a televisão pegava a MTV, sou filha da geração que ligava para celulares de Curitiba pedindo música, ria do Thunderbird e queria ser Marina Person. A madrugava chegava, conectava meia noite (o tal do pulso único que custava centavos por uma navegação de horas), quatro da manhã virava abóbora, ao mesmo tempo a televisão ligada, Joy Division aparecia no Lab, não entendia nada, demorei para gostar deles.

Já gostava de The Cure, Black Sabbath, Radiohead, Bob Dylan e Alice in Chains. De tarde era Avril, Amy Lee e Pitty. Não tinha pai, mãe e nem ninguém me ensinando sobre música, amor, aprendi pela televisão, nas janelas do Mirc, Irc, MSN, no recreio em discmans alheios. Tinha que aprender a me livrar dos pintos que insistiam aparecer na webcam ou velhos pedófilos que usavam nick do Kurt Cobain.

Sou monstro feito pela televisão, livros proibidos, internet e acima de tudo, pelos estranhos. Sou plástica, tudo me atravessa, modifica aqui dentro, vou fluindo e nunca sou ou serei a mesma.

Quanto volto lembro que por pouco não amo gatos, se não tivesse me forçado a superar o medo depois que uma gata grávida me atacou. Ainda não gosto de entregar meu coração para cães, o único que tive morreu com a barriga roxa, chorando no chão do pátio, ele era o mais bonito que já vi. A MTV acabou, mudou, morreu. os computadores diminuíram, a internet não é mais discada e não tenho mais email do Bol. Ainda me sinto dentro do carrinho de supermercado com o Thom Yorke. Cresci, meu lar é o mundo, os estranhos não são os mesmos, mas ainda me ensinam. Esqueci de tanta coisa, que esqueci de lembrar que ainda bem, a vida é fluxo.

*Publicado originalmente em Gatatotem.