Precisamos falar dos otários

O desafio é escrever sobre amor sem parecer medíocre. O desafio é escrever sobre amor como o catálogo Hermes encanta os nossos corações. Logo de saída, quem escreve, pode ter um prazer tendencioso de se colocar na persona de estrela decadente, de amante idiota, mas que subitamente percebeu seus erros. Somos sempre modestos.
O desafio é lançar os fatos, trabalhar com as nossas sujeiras, expor no papel, na página em branco. Poucos fazem isso com a crueldade que sabem merecer. Nos primeiros parágrafos exalta o amado, a amada. Assim a fórmula vinga. Rebaixar-se para mostrar-se humilde. Essa tal humildade cristã. O leitor em poucos parágrafos já se deixou levar por dois ou três causos e passa a amar quem diz sofrer por amor (coitado). Será que os personagens principais são mesmo dignos desse sentimento que afloram em nós? Quem são os narradores?
Conheço inúmeros Humberts, nenhum deles foi criado por Nabokov, mas fazem de todas nós suas Lolitas. “Não se pode mais chorar um amor, nem ao menos abrir o coração”, reclamam. E o que as mulheres tem que fazer com as cartas, e-mails e mensagens de seus antigos companheiros? Eu diria, limpar os orifícios. Absolutamente todas as mensagens que tive acesso seguiam o mesmo padrão, inclusive as endereçadas a mim. Não são as palavras que edificam as lembranças, são as próprias ações, marcadas em consequências e não em cartas.

As histórias são contadas de diferentes perspectivas, e há muitas maneiras de se conquistar a confiança de um leitor, que vive em uma sociedade ocidental que é empurrada para as relações, mesmo que sejam forçadas. Não vou falar de amor líquido, calma. Afinal Bauman tá em todo o canto e cansei de citá-lo. Se alguma coisa é realmente liquida aqui, é minha paciência. Falta sinceridade, mas falta mesmo silêncio. Não é necessário mandar cartas, mensagens e todo o tipo de perseguição possível para quem você machucou, muitas vezes sair do meio do caminho é o melhor e mais digno a se fazer. O mundo está cheio de escritores medíocres, que fingem dor, quando na verdade estão sempre esmagando.