Como usar referências na redação do ENEM

Incluindo uma lista de referências versáteis!

niva
niva
Nov 3 · 10 min read
caligrafia é TUDO pra mim

O critério de Estrutura e conhecimentos, que vale 200 pontos na nota da redação, avalia dois aspectos: a estrutura da sua redação — isto é, se a introdução, desenvolvimento e proposta estão onde deveriam estar — e os conhecimentos aplicados. Por conhecimentos, entende-se tudo aquilo que você traz para reforçar sua redação, geralmente em forma de exemplos ou referências.

A referência é tipo um fiador pro teu argumento. Você pode falar pra imobiliária que vai pagar o aluguel todo fim do mês, certinho, mas isso é só a sua palavra. Por que ela confiaria em você? Aí vem o fiador e fala: olha só, eu garanto o que essa pessoa tá falando. E como o fiador é alguém de confiança, ele passa essa confiança pra você — agora você é confiável também.

Referências funcionam do mesmo jeito. Você pode até desenvolver direitinho seu argumento, mas sem um fiador, sem uma referência, ele não tem peso. Pro seu argumento ser confiável, ele precisa ter algum apoio externo, senão o texto vira trinta linhas de você falando sozinha.

Ou seja, a referência apoia seu argumento. É como se você dissesse: escuta, isso aqui não é só coisa da minha cabeça não. Já disseram a mesma coisa em tal música, tal filme, tal teoria, tal época. Eu entendo como esse tema se encaixa no mundo.

Pra chegar à nota 900, sua redação precisa incluir duas referências.

TÁ, MAS O QUE É UMA REFERÊNCIA?

Referenciar é traçar uma relação entre o argumento e algo que você já conhece.

Vamos supor que o tema seja Legalização da educação domiciliar. Educação domiciliar é o nome desse novo modelo de educação, que o governo Bolsonaro está tentando legalizar, no qual o estudante não vai à escola; ele aprende em casa, com os pais, sem professores.

Em relação a esse tema, um dos meus argumentos gira em torno de como o professor ajuda a mudar o mundo. Como nós podemos apoiar esse argumento? Bom, eu posso falar do filme Sociedade dos Poetas Mortos, em que um professor inspira seus alunos, ou então citar Paulo Freire, que disse que se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Ambas são referências válidas; o importante é enxergar a relação entre a referência e o argumento.

privilégio do professor homem é dar aula arreganhado assim

E SE EU NÃO SOUBER UMA REFERÊNCIA?

Então escolha outro argumento.

Sério. A referência é o diferencial entre uma redação ok e uma redação excelente; ela tem um peso enorme na nota. Por isso, sempre dê prioridade aos argumentos pros quais você tem alguma referência!

Continuando o tema acima, por exemplo, vamos supor que você não consiga pensar em nenhuma referência sobre o papel do professor. Tudo bem. Mas e sobre a desigualdade? A educação domiciliar seria desigual, porque gente pobre não tem dinheiro nem tempo nem capacitação pra educar os filhos em casa. Por isso a educação pública é importante; pra garantir que a educação alcance a todos, independente do quanto a sua família ganha. Então qualquer referência relacionada à desigualdade serviria nesse tema! Uma estatística, talvez, ou quem sabe outro filme…

Ou seja, o importante é que a referência seja relevante ao seu argumento de alguma forma. Digamos que eu queira criticar a política brasileira, dizendo que ela avança e retrocede, sem fazer progresso. Eu posso puxar da mitologia grega e referenciar Sísifo, que foi condenado a rolar uma pedra enorme montanha acima. Toda vez que ele chegava ao topo, a pedra rolava de volta, e ele precisava buscá-la e empurrar ao topo novamente. Essa é uma referência sobre ciclos; como o meu argumento diz que a política brasileira está num ciclo, ela se aplica.

ENTÃO EU POSSO USAR QUALQUER COISA DE REFERÊNCIA?

Praticamente qualquer coisa, desde que se encaixe no argumento. Pense nas referências como categorias — existem referências culturais, históricas, acadêmicas e em forma de frases.

Entre as culturais, temos filmes, músicas, livros, poemas, fábulas, mitologias, estátuas, pinturas. O quadro “Guernica”*, por exemplo, retrata a cidade de Guernica sofrendo um bombardeio; é uma ótima referência em argumentos antimilitarismo e antiguerra.

*Todo título de obra, seja livro, arte, filme ou o que for, deve ser incluído na redação com ASPAS!

Já as referências históricas usam, como o nome já diz, eventos ou períodos históricos como apoio pro argumento. Você pode mencionar, por exemplo, a Revolta da Vacina, ou o costume romano de abandonar bebês “imperfeitos” pra serem devorados por cachorros selvagens.

As referências acadêmicas apresentam conceitos de todo tipo; da filosofia, sociologia, antropologia… você pode falar do individualismo em Durkheim ou do mundo das ideias de Platão, por exemplo. Essas são as mais difíceis, mas valem MUITO a pena se você souber do que tá falando. Uma dica: tente se especializar em um filósofo só (por exemplo, Bourdieu) e entender muito bem o que ele pensa sobre o mundo. Aí você pode usar o pensamento dele pra quase qualquer coisa! Lembre-se que o corretor do ENEM só vai ler uma redação sua, então o que importa não é o tamanho do seu repertório, mas sim a qualidade.

Por fim, referências em forma de frase podem ser tanto acadêmicas quanto históricas ou culturais; a diferença é que estão em forma de citação direta. Existe uma diferença entre dizer que Rousseau escreveu sobre a liberdade do indivíduo, uma referência acadêmica, ou citar diretamente a abertura do seu livro mais famoso:

“O homem nasce livre e por toda parte se encontra acorrentado.”

Isso porque as frases famosas têm mais impacto; não é à toa que elas ficaram famosas!

Caso você não se lembre exatamente da citação, procure parafraseá-la; isto é, escrevê-la em outras palavras:

Como disse Rousseau, o homem nasce em liberdade, mas não se mantém livre.

ENTENDI, ENTÃO NÃO TEM ERRO, É SÓ REFERENCIAR QUALQUER COISA!

Calma lá. Não é bem assim. Em quase toda redação que eu corrijo, a autora cometeu um dos três erros a seguir: usou referências que não entende, referências que não se encaixam no argumento ou simplesmente não explicou o que a referência tem a ver com o texto!

O primeiro erro é muito comum, especialmente em referências acadêmicas. A regra é: não entende? Não referencie. É muito melhor citar uma música que você conhece bem do que um trecho de Bourdieu que você pesquisou só pra usar na redação. Filósofos e sociólogos têm ideias complexas, que precisam ser entendidas direitinho, pra você não acabar associando a pessoa a algo em que ela não acredita. Você pode não saber que fez isso, mas talvez a corretora saiba. E aí fudeu.

Uma maneira de evitar esse erro é utilizar referências de áreas que te interessam. Quem gosta muito de filmes, por exemplo, pode sempre referenciar filmes em suas redações. Eu gosto muito de mitologia grega, então sempre enfio um mito em algum lugar, mas você pode ser mais fã da Bíblia e saber várias parábolas de cor. Use o que você conhece! E se você tem um apego por um filósofo específico, fique craque nas ideias dele. Aí você pode usar ele pra tudo. Bauman, Marx, Durkheim e Weber são bons exemplos de filósofos que combinam com vários temas — dá pra deixar um na manga em caso de emergência.

Já o segundo erro, da referência que não cabe no argumento, tem a ver com aquela EMPOLGAÇÃO que a gente sente quando pensa num autor foda, ou na música perfeita pra referenciar. A gente fica tão animada com esse pontinho extra que acaba nem conferindo se a referência faz sentido mesmo. Lembre-se: não adianta jogar uma referência qualquer e se dar por satisfeita. Você só ganha ponto pela referência que faz sentido!

Por fim, o terceiro erro é o mais grave e o mais comum: inserir a referência solta no parágrafo, sem explicar o que ela tem a ver com o seu argumento ou com o tema. Olha esse exemplo de como NÃO encaixar uma referência:

O sociólogo alemão Max Weber defendia que o poder é toda a possibilidade de impor sua vontade sobre uma pessoa. Não são poucos os relatos de violência policial no Brasil, que estão infelizmente relacionados com o racismo, crescendo cada vez mais o número de jovens negros mortos pela polícia.

Deu pra entender onde a pessoa tá querendo ir com isso: a violência policial é uma consequência de concedermos poder a uma instituição racista. Só que o texto não fala isso! A relação entre a referência e o argumento fica só nas entrelinhas, como se a autora achasse que a gente consegue ler o pensamento dela. Ninguém consegue ler pensamento, e pior; ninguém ganha ponto por pensamento. Tem que botar tudo no papel.

corrigindo sua redação

Veja só como relacionar claramente a referência ao argumento já o deixa muito melhor:

O sociólogo alemão Max Weber defendia que o poder é toda a possibilidade de impor sua vontade sobre uma pessoa. Nesse sentido, a força policial exerce um poder sobre a população brasileira, especialmente sobre jovens negros, já que impõe sua vontade sobre eles por meio da violência. De fato, não são poucos os relatos de violência policial no Brasil relacionados ao racismo, crescendo cada vez mais o número de jovens negros mortos pela polícia.

E COMO EU ENCAIXO MINHA REFERÊNCIA NO TEXTO?

Seja bem direta! Não adianta só escrever a referência e seguir em frente; tem que parar, explicar, mostrar a relação. Só aí ela é usada direito. Olha esse exemplo de referência numa introdução:

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.” Os versos do poeta alemão Brecht ilustram os desafios do combate ao tráfico de drogas; enquanto a sociedade repudia a violência do traficante, nada é dito sobre a pobreza que o leva ao crime.

Enquanto a primeira frase apresenta a referência, a segunda frase explica exatamente a relação entre a referência e o tema (Desafios do combate ao tráfico de drogas). Ou seja, a referência tá encaixadinha — você sabe exatamente por que ela tá ali.

Peraí, pode referência em introdução? Pode! A prioridade é o desenvolvimento, porque é lá que os seus argumentos precisam de mais ajuda; mas se você tiver uma referência sobrando, joga pra introdução.


DE QUANTAS REFERÊNCIAS EU PRECISO NA REDAÇÃO?

Para obter a nota máxima no critério de Estrutura e conhecimentos, é preciso, além de uma estrutura impecável, duas referências utilizadas corretamente. Nesse sentido, pra facilitar sua vida, vamos listar abaixo algumas referências versáteis, que se encaixam em diversos temas e maximizam a chance de que você alcance um notão nesse critério.

hora de fingir que a gente sabe alguma coisa sobre a Grécia antiga

CITAÇÕES

“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.” (Darcy Ribeiro, antropólogo)

“Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.” (Barão de Itararé — que não foi Barão, foi um humorista)

“A violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida.” (Papa João Paulo II)

Também é possível referenciar estas frases em forma de paráfrase; isto é, reescrevendo a frase no mesmo sentido, mas em outras palavras. Basta deixar claro quem é o autor e a referência será contada.

ESTATÍSTICAS

Todas as estatísticas abaixo devem ser citadas junto do nome completo do órgão. Referências sem fonte ou com fonte abreviada em sigla terão sua pontuação diminuída ou podem até não ser consideradas!

Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 12 milhões de brasileiros estão desempregados.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, menos da metade dos brasileiros que já passaram dos 24 anos têm o ensino médio completo.

Uma boa dica genérica no uso de estatísticas: simplifique os números. Arredondar 852.000 para “mais de 800.000” ajuda na hora de memorizar!

ALEGORIAS

O poder da alegoria é o de encontrar em uma história, seja um mito, fábula, parábola ou conto de fadas, um paralelo ao problema em questão. As alegorias abaixo são versáteis, se encaixando em diversos possíveis temas. Lembre-se de amarrar a alegoria ao tema em questão, deixando claro a sua relação com o que está sendo tratado! Do contrário, a referência fica solta no texto e não recebe pontuação.

Em sua casa, Procusto tinha uma cama de ferro, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os baixos eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. No entanto, a vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama porque Procusto, secretamente, tinha duas camas de tamanhos diferentes. O mito de Procusto representa a intolerância do ser humano em relação ao seu semelhante, sempre buscando adequá-lo a padrões aos quais não pode nunca se encaixar.

Na história da Branca de Neve, sua madrasta ouve do Espelho Mágico que não é mais a mulher mais bela do reino. Isso a faz sentir tanta inveja que ela então entra num ciclo de violência que leva, eventualmente, à sua própria destruição. Esse conto de fadas trágico é análogo ao impacto que as redes sociais, e a mídia em geral, têm sobre a autoestima daqueles que as consomem.

De acordo com a mitologia grega, Hércules precisou cumprir doze tarefas para tornar-se um deus. Tais tarefas só poderiam ser realizadas por alguém com capacidade e habilidades divinas; logo, eram uma forma de avaliação razoável para o que se desejava testar. O mesmo não pode ser dito de vestibulares, entrevistas de emprego e diversos outros processos seletivos, que exigem habilidades divinas de quem é mero ser humano.


Espero que o uso de referências na redação tenha ficado mais claro!

Boa prova ❤

niva

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niva

escrever é bom né? faz um bem

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