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É meia noite. Depois da encruzilhada, a rua de terra batida leva ao barracão iluminado por velas pretas e vermelhas. Os tambores tocam uma sequência lúgubre, os tabaqueiros entoam cânticos que fazem os cães latirem ferozes. Aviso que não adianta fazer o sinal da cruz, no barracão existe um outro maioral. …


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Nasci em um bairro pequeno, de casinhas coladas “parede com parede”, e a vizinhança sempre presente foi uma forte marca da minha infância. Foi nela que me deparei a primeira vez, ainda pequeno, com o preconceito religioso, quando sabia que todos meus amigos da rua tinham sido convidados para brincar na casa de alguém, menos eu, por ser o “filho do macumbeiro”. Embora nunca tivesse visto meu pai acender uma vela sequer para demandar contra alguém, as pessoas que o conheciam apenas de vista o respeitavam, com certo temor.

Meu pai não fazia questão de provar que era bom para desmentir a fama que o preconceito o atribuiu. Os vizinhos que com ele conversavam, sabiam que a proposta da Seara de Oxalá Casa de Xangô era — e foi até seu último dia — a caridade, o respeito ao livre arbítrio e o amor incondicional. …


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Quando refleti sobre como escrever essa história, pensei em tratá-la toda na 3ª pessoa, mas logo percebi que falar da Seara De Oxalá e de seu Babalorixá, sendo que a Seara é minha casa e o Babalorixá foi meu pai de sangue, seria, no mínimo, difícil. Escrevendo, constatei que separar-nos é impraticável.

Por isso não me preocupei em assumir uma única narrativa do começo ao fim, mas sim transitar entre o eu, o tu, o ele, o nós, o v´´os e o eles. …

About

Nivartan Gabriel

Jornalista e Escritor — www.nivartangabriel.blog/