Ponte aérea

Eles se conheceram há alguns meses por intermédio de amigos, ele carioca estudante bolsista de artes cênicas em Londres, ela galerista bem-sucedida em São Paulo, teclaram muito, conversaram por telefone algumas vezes, combinaram um fim de ano que deu errado pelos amores mal resolvidos (de ambos).
Por fim ela, com persistência comercial bem desenvolvida, resolveu pegar a ponte aérea e encontra-lo em um fim de semana alinhado às pressas no Rio. Arrumou a mala, desmarcou compromissos, marcou hotel, e as 10:00 da manhã estava na orla da praia respirando leve. Conversaram por mensagens, combinaram um bar com a companhia de um amigo em comum, sem o peso da obrigação de um “ficar”, pois esse foi o trato, e esse foi o risco. Já no horário decidiu caminhar até o bar, o hotel em Ipanema era próximo ao local combinado, o Rio tem dessas coisas, pensou. O amigo em comum chegou antes, sempre sorridente preparou o terreno, e ela se permitiu pensar que um bom encontro estaria por vir, uma boa amizade no mínimo.
O convidado principal chegou em seguida , e a recepcionou com um beijo petrificado no rosto, nos olhos opacos ela reconheceu o desinteresse evidente já presenciado em dezenas de reuniões, onde uma das partes não desejava estar ali. Primeiramente ela se culpou, no intervalo de um dos silêncios constrangedores foi se ver no espelho, se sentia bonita, o corpo malhado, os cabelos bem cuidados, notou o interesse do rapaz de barba e camisa verde na entrada e saída do banheiro, estava atraente. Tentou contornar a situação, falou em amizade, descompromisso, e por fim ele desabafou, se sentia oprimido, depressivo, triste, e não soube declinar do convite que havia feito em um momento de euforia. Ela eleganterrima, ouviu as lamurias, pediu mais um drink e foi o mais cordial que a situação permitia, e pensou, mais um depressivo para a conta.
No outro dia acordou e não esperou um novo convite, sabia que não viria, e achou ótimo não ter que declinar. Pensou em mandar uma mensagem desabafando ao amigo em comum, mas seria como reclamar nas mídias sociais, ineficiente e constrangedor. Separou a agenda com os amigos na cidade, mandou 5 mensagens, e se preparou para fazer seus habituais 10 k, ao chegar no hall do Hotel recebeu uma resposta, caso estivesse próxima de Ipanema teria companhia para a corrida e almoço, ajustou os fones de ouvidos, ligou o play, e por fim pensou, o Rio tem dessas coisas.