Vitórias e derrotas
Julio César, 76 anos, divorciado, engenheiro e empresário.
Júlio, morador do Humaitá, teve uma boa infância. Estudou no 2º melhor colégio do Rio de Janeiro e desde o primário se destacou pela facilidade em Matemática. Aos 6 anos, o pequeno Júlio sabia a tabuada de 7(porra, convenhamos que a de 7 é muito difícil) e já tinha noções de como multiplicar e dividir. No ensino fundamental, o sucesso em exatas continuou só que agora o menino era desenvolvido, também, em disciplinas como Química e Física. Júlio era inspiração para os amigos, orgulho da família e destaque da escola. Aparecia no quadro principal do colégio, semanalmente, como o melhor aluno de turma.
Júlio cresceu, acabou o período escolar e teve uma ótima oportunidade de estudos em Portugal. Como era de uma família abastada, manter-se financeiramente no velho continente não seria um problema. Júlio, com 18 anos, foi se aventurar em ruas portuguesas e estudar Engenharia Civil na universidade de Aveiro. Júlio conheceu muita gente, inclusive, sua futura esposa — Letícia. Lê — como ele a chamava — era brasileira, porém, paulista.
Júlio, no retorno ao Brasil, decidiu fundar uma construtora. A empresa teve números surpreendentes e fez obras gigantescas em todo o Brasil. Ele, aos 30 anos, já tinha dinheiro suficiente para sustentar 3 gerações de sua família. Entretanto, Júlio queria mais. Ele passou a investir no mercado de ações, e junto de um amigo e sócio, viu seu investimento triplicar em apenas 2 anos. Um puta sucesso. Quem olhasse pra Júlio diria aquela famosa frase: Júlio venceu na vida…
E a Letícia, como estava nessa história? Bem, a Lê se formou em medicina e exercia a profissão com maestria. No fim da faculdade, ainda em Portugal, Júlio e Letícia se casaram e tiveram dois filhos. Pois é, a vida tava boa e ainda tinham duas crianças pra alegrar essa família. Mais uma vez, muitos olharam pra Júlio e disseram que ele venceu na vida.
A empresa ia magnificamente bem e surgiu uma proposta tentadora. Uma transnacional norte-americana convidou Júlio e seu sócio para uma parceria de 10 anos. Era uma proposta tentadora, daquelas irrecusáveis… Ele pensou por 15 dias, conversou com a família e se mandou para a terra do Tio Sam.
Era pra ter ficado 10 anos com visitas trimestrais ao Brasil, mas ficou 20 com raras visitas ao nosso país. Júlio, mais uma vez, obteve um sucesso financeiro-empresarial incrível. Júlio já fazia parte da lista dos 100 mais ricos do mundo. Que honra, hein, Julião…
Entre esses 20 anos, porém, aconteceram mudanças na vida desse sujeito. Letícia e Júlio decidiram se separar, pois a distância inviabilizou a relação entre os dois. Letícia se esforçou bastante para dar certo, mas chegou num limite que ficou complicado pra ela. Os filhos de Júlio, assim como ele, eram um sucesso na escola e já tinham um futuro extremamente promissor. Já estavam na faculdade e ambos tinham negócios comerciais no Brasil. Júlio sentia que deveria ficar feliz com o sucesso dos filhos, todavia, não ficara por um motivo que ele sabia, mas não conseguia identificar. Não era tão claro para ele. Havia dificuldade de ver os erros.
Júlio, infelizmente, aos 65 anos descobriu que contraiu Hepatite C. Triste demais, eu sei. Nessa sua passagem no EUA, ele se envolveu com algumas mulheres e, provavelmente, contraiu de alguma delas. Infelizmente, a doença avançou e Júlio teve de ser internado. Ele era estupidamente rico, logo, teve bons médicos e boas condições para se tratar.
Nessa situação, curiosamente, Júlio sentia uma dor pior do que os sintomas da doença. Ele sentiu o abandono. Durante 3 meses de internação, Júlio recebeu só duas visitas. Uma era de seu motorista particular e a outra de um amigo de velha infância — ele viu no Jornal Hoje que Júlio estava internado.
Nessa hora, ele se perguntava onde estava Letícia e seus dois filhos. Bem, sua ex-esposa estava no Caribe com 4 amigas há um ano. Ela largou o Brasil, por definitivo. Seus filhos, assim como ele quando era jovem, estavam fora do país para resolver negócios. E vocês sabem como é, né? Negócios são negócios. São prioridades e estão em primeiro lugar.
Ao sair do hospital, ainda debilitado, Júlio encontrou os filhos. Para sua surpresa, eles o colocaram num asilo. De luxo, óbvio. Júlio se entristeceu mais ainda e se afundou numa profunda depressão. Ele não compreendia o porquê de tanto desleixo e desafeto. Júlio, nessas condições, morreu aos 76 anos, deixando uma fortuna de 11 fucking bilhões de dólares.
Ah, nessa história toda, gostaria de destacar algumas coisas da infância do Julião pra vocês. Júlio era bom na escola e destaque em Matemática. Ele, porém, esqueceu que uma das lições básicas que a matemática nos deixa é de buscar incessantemente o equilíbrio. Júlio, no papel, resolvia uma equação como poucos. Mas parece que ele não se ligou que a nossa vida cotidiana pode ser interpretada como uma equação. O equilíbrio é fundamental. Se multiplicamos por 2 de um lado, temos que fazer o mesmo do outro. Júlio era “a” referência no mundo do business, porém vai ser lembrado como um merda na relação familiar. Nenhum familiar o visitou enquanto estava internado e apenas um amigo foi até lá. Júlio valorizou profissão, dinheiro mas desvalorizou família, amigos e afetos. Júlio era bom em matemática na teoria, mas na prática…
No final , fica o questionamento, Júlio venceu na vida?

