A Criatividade Vem Dos Esquisitos

Todo mundo quer ser Mark Zuckerberg e Steve Jobs. Todos querem pensar fora da caixa, e muitos colocam em seus currículos o quanto são proativos, disruptivos e outros tantos “ivos”. Mas as estatísticas não mentem: Zuckerbergs não brotam em qualquer esquina. E, se estamos apostando em treinamentos e capacitações para pensar como eles, alguma coisa não está fechando nessa conta, certo?

Longe de apresentar a fórmula para se tornar o próximo Steve Jobs — até porque, se eu soubesse, não dividiria tão abertamente — tenho me questionado sobre a dificuldade que temos em assumir quem somos de verdade. Opiniões, preferências e trejeitos que nos acompanham desde crianças, mas que ao longo da vida vamos aprendendo a moldar a fim de nos encaixarmos em um modelo dito como vencedor.

Nada contra sermos mais assertivos, melhorarmos nossas habilidades de networking, etc. O problema é, quando em meio a essa busca, passamos a matar exatamente aquilo que nos faz diferentes: as nossas paixões. Quando crianças, não temos a menor vergonha de nos mostrar como somos. Mas, ao longo da vida adulta, acabamos deixando nossas paixões de lado por medo do julgamento alheio. Vamos nos encolhendo, jogando sempre dentro da safe zone, tudo isso enquanto assistimos a dezenas de treinamentos para caber na fôrma dos campeões.

Por um bom tempo, fui completamente travada na minha vida profissional em função disso. Sou introvertida. Segundo o Teste de Myers-Briggs, um dos mais conhecidos indicadores de personalidade, meu resultado é INFJ. Isso quer dizer, entre outras características, que é pouco provável que eu seja aquela líder super carismática capaz de arrebatar audiências e levá-las ao êxtase. E não porque eu não seja capaz, mas simplesmente pelo fato de que as minhas inclinações e paixões nada têm a ver com isso: prefiro escrever a falar em público, faço amizades e conexões em pequenos grupos com mais facilidade do que em meio a uma grande multidão. Testes de personalidade não têm a menor relação com juízos de valor mas, quando vivemos em meio à cultura dos extrovertidos, é fácil enfiar os projetos no fundo da gaveta por medo de ser diferente.

Até que, depois de alguns anos quietinha nas mesas de reuniões, percebi uma verdade: as minhas paixões são a essência do que eu sou. Não posso escondê-las, sob pena de viver pessoal e profissionalmente como uma pessoa que não sou. O preço disso é muito alto. Se funciona na cartilha do líder ser extrovertido, que legal! Mas eu não sou assim. Resolvi, aos poucos, exercitar o respeito aos meus limites e a expor aquilo que me interessa. Conversando pessoalmente ao invés de levantar a mão na sala lotada. Conhecendo as pessoas previamente antes de uma reunião na qual terei que expor várias ideias, para aliviar a tensão. E, ao longo dessa jornada, aprendi algumas coisas:

A criatividade vem dos esquisitos

Quanto mais tentamos nos encaixar na multidão, menor a chance de criarmos algo diferente. O novo só aparece quando tentamos ou pensamos “estranho”.

Ser diferente constrói pontes

Quando temos coragem de mostrar aquilo que realmente somos, construímos pontes com os outros. Alguém vai se identificar com o seu gosto por história em quadrinhos, ou com a sua paixão por música clássica ou código aberto. Autenticidade cria empatia.

Os bons são a maioria

É surpreendente o quanto recebemos mais apoio do que críticas quando expomos a nossa opinião e as nossas paixões. Experimente publicar um tumblr com os seus desenhos de final de semana, e vai entender o que eu estou falando. Só o fato de ter coragem de botar a cara para fora, já faz com que as pessoas nos admirem. Experimentar isso é tão renovador que chega ao nível do viciante.

Desde que eu resolvi colocar isso em prática, de forma surpreendente (ou não), minhas ideias começaram a emplacar. Criei um blog no qual posso compartilhar as minhas paixões por meio da escrita e, no trabalho, comecei a receber convites para contribuir com ideias em vários projetos que eu nem imaginava poder ajudar. Hoje, eu trabalho com um time 90% baseado nos Estados Unidos, e posso dizer que já não tenho tanta vergonha de sugerir as minhas ideias esquisitas em meio a eles. O resultado? Empatia, credibilidade. O mais incrível é que, cada vez que isso acontece, continuo a me surpreender.

Pode ser (e as chances são bem grandes), que eu jamais seja um Zuckerberg da vida, mas o exercício de calçar os meus próprios sapatos tem sido uma experiência bem mais interessante do que eu esperava. E, embora eu ainda esteja aprendendo, descobrir que não sou a única nesse barco já ajuda bastante.

PS: Uma dica para quem — como eu — adora descobrir mais sobre si mesma por meio de testes de personalidade. O Mashable compilou uma lista de 14 testes online e gratuitos que podem auxiliar não só a nossa orientação na vida pessoal, mas também na carreira. Um deles é o que eu comentei ali em cima, mas todos os outros também são muito interessantes.

Texto originalmente publicado no site do Jogo de Damas, em 04/2016.