Nunca fui uma criança ligada aos jogos digitais, nunca nem tive um videogame em toda a minha vida. Minha única experiência com eles era visitando meus primos, mais novos que eu inclusive. Naquela época se falava muito em Sonic e Mario, mas nem mesmo Mario fazia a minha cabeça. Depois de vinte minutos jogando e como uma pré adolescente com baixíssima tolerância à frustração, eu desistia do jogo e ia fazer sei lá o que, comer um pedaço de bolo ou tentar puxar assunto com os meninos que estavam completamente concentrados. Minha mãe, vendo minha ansiedade, ficava me dizendo que…

meio fantasma, meio fantasia

Você disse que sentiu tanta saudade que derreteu um pingo de sol dentro do cobertor

Calor indelével

Esse que você deixou

Penso em ecos

Uma sucessão deles

Ressoando no que desconfio que é o pra sempre se fazendo aqui

Bem diante dos meus olhos

Eu quase ouço você dizer

Da minha cara de felina

Mas um filhote

Com esse jeitinho assim tão pueril

Você falava tanta coisa linda… e tonta

Que se na vida real

Por mais de seis meses

E não no sonho derramado nos dias

Em alguma briga eu gritaria “possessivo!”

E você insistiria no

Volátil

De sempre

Talvez seja bom

Você assim meio fantasma

Meio fantasia

Eu te beijo a boca

E nunca

Quero sair de fininho.

Nunca encontrei meu lugar na cidade nem tu o teu dentro de casa. Não sabia que existiam apartamentos enormes que nem o teu por aqui, nem podia imaginar que ia acabar querendo que tu me deixasse ficar por entre as plantas, fazendo parte da decoração, me levantando só pra sentir o sol na sacada e fumar um cigarro. Não lembro o que você achava dos cigarros, só lembro de me pedir pra fazer menos barulho. Senti estranheza e encanto, te confessando meu medo de escadas, querendo deitar no piso de madeira, te vendo tão pequena e imponente no meio daquilo…

pinterest
pinterest

pequena e ainda assim invencível dentro do cenário mais improvável

escrever não tem sido natural

não que as palavras não venham.

vem aos montes

mas pareço totalmente inábil

a organizá-las, a fazer o mínimo esforço

de falar qualquer coisa coerente.

ultimamente a vida tem fugido tanto do script

as coisas tão estranhas e pro meu alívio, menos sistemáticas

que acredito que tudo é possível.

(é bom descobrir o novo

e é terrível sair do conforto)

até mesmo ouvir a voz que me diz

‘’fica mais um tempo sentada aí, vê até onde o destino alcança esse querer’’

é ver pra…

Escrevi algo sobre as bordas da moldura que testemunharam o tempo que passamos juntos

Uma janela, um longo espaço que desenhava o mar

O mar talvez seja invenção minha.

Tenho perdido tanto tempo

Tenho amadurecido

Tenho me tornado grande, me escondido, tenho me dado ao amor sem desespero

Tenho enfrentado além de todo o trauma, o meu ego, quando penso em todo alvoroço, toda a grande confusão

É tão estranho ter vinte e três anos

É tão estranho encontrar felicidade nas calçadas e no respiro que dura sempre tão menos do que eu gostaria

E que mesmo assim é grande…

maybe it’s time to let the old ways die

Estou dentro de uma concha, meu fôlego é imenso. Meus pulmões parecem ter sido tecidos embaixo d’água, sei que o nome do meu filho é Houdine e só lembro do mágico depois, assim que piso nessa espécie de cartório de desenho animado. Existem estátuas que contam a história da minha família e uma especialmente pra minha avó. Não há nada essencialmente esquisito, muito do que sonho envolve água. Eu sou um rio, e se tenho que ser humana, sou um corpo transparente feito de água corrente, fluido. Vi você, ainda menino…

usucapião

você vai perder outra inspiração

e eu amo muita gente que não quero por perto

essas distâncias guardam tanto carinho

mas pouquíssima disposição

queria morar num castelo porque nenhuma casa nunca foi minha

porque tem um choro entalado na garganta

pela imagem terrível das nossas lembranças, minhas e dela

tomada por quem quer que queira

fazer usucapião

o susto é bruto, violento,

bem no centro resta

essa delicadeza que é tão difícil de mostrar

e só tomam e tomam e tomam

eu tenho uma raiva que percorre minhas mãos

e cerro os punhos

não sei o que fazer com…

Filha do sol

Eu poderia escrever uma música sobre as mulheres da minha vida

Um livro, até

São todas seres brilhantes e grandes

É assim que vejo, olhando pra elas

Espantada

Curiosa

As dores delas parecem com as minhas

Quando não podia imaginar

Que poderiam ao menos começar a entender do que falo

Elas vieram de outros tempos, de outros cenários

E ainda assim

Como a história se parece

Se repete

Colide

E conecta tudo.

É tudo proteção e paz

Quando olho e vejo sabedoria, identificação e um sentimento tão forte que nos une

Mais forte que qualquer outra coisa…

é de sentir muita raiva

e machucar as mãos

esfregando a parede e

a pele

pra limpar os resquícios de

terror

borrão, filme ruim

pesadelo

tem sempre um bicho me picando

no meu sonho

um bicho envenenando meu sono

cê me deixou a desconfiança

o alerta

o trauma

às vezes meu peito descansa

encontra uma paz tão grande

e eu, nesse momento,

sei que tu é mais que alguém somente amargo e mau

me vem a inquietude

porque depois de todo o desespero

como é que posso admitir

que tu é só um menino?

cheio de realidade, vencido de raiva…

Big Fish

Escrevi uma história sobre a gente. Ela fala muito da nossa infância, uma que praticamente não tivemos juntos. Tudo que sei sobre nossa infância é o que minha mãe me contou sobre você não querer me emprestar a bóia em formato de baleia e seu pai me prometer uma. Nunca vou te contar o final dessa história como nunca vou contar do poema doído que te escrevi, como se previsse. Não é tão ruim assim, fico me dizendo, escrevi coisas piores pro meu pai. Lembro da luz da lanterna na parede enquanto todo mundo dormia e a gente…

Noah Malta

escrever é um modo de existir > linktr.ee/noahmelo

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