O Grifo da Vila Mariana

“Eu brincava sozinho e em silêncio como quem ora. Apenas as armas que disparava emitiam sons. Ptchu, ptchim… e alguns gritos também vazavam nessas brincadeiras. Era o som da morte. Quando um dos bonecos era atingido. E eles morriam em câmera lenta. Eu sempre elegia um dos bonecos para ser eu. Brincar é também uma forma de gerar duplos.”

Lourenço Mutarelli é escritor, ilustrador, quadrinista e ator. O autor trocou os antidepressivos pelo uísque depois de 28 anos de uso contínuo. Além dos antidepressivos, largou também os quadrinhos. Em suas últimas entrevistas o autor declara seu cansaço com a produção e a cena das hqs (não chega a renegar, como afirmou a chamada de uma das entrevistas, para O UOL, mas afirma que não quer mais mais fazer parte do meio).

Esse incomodo vem se desenvolvendo há algum tempo. Mutarelli declarou sobre seu último trabalho ilustrado, que não chega a ser exatamente uma história em quadrinhos: “eu voltei meio obrigado, me fizeram uma proposta irrecusável financeiramente e, como uma boa prostituta, eu aceitei.”

Uma primeira impressão sobre o novo livro — “O Grifo de Abdera” — pode ser a de que o autor esteja querendo exorcizar o quadrinista. Deixe essa impressão de lado e mergulhe no jogo literário proposto. O protagonista, Mauro Tule Cornelli é escritor e Paulo Schiavino desenhista, os dois criam Lourenço Mutarelli, que é interpretado na vida pública por Raimundo, o bêbado Mundinho. Certo dia Mauro recebe uma moeda grega muito antiga, o grifo de abdera, e neste momento descobre que além de si também é outro, Oliver Mulato, professor de Educação física.A partir daí acompanhamos os desdobramentos dessa conexão que se forma entre os dois personagens, a influência desastrosa da consciência de Mauro na vida de Oliver e a fascinação que a vida rotineira de Oliver causa em Mauro.

Entre bastidores do mercado literário, considerações sobre o oficio da literatura e dos quadrinhos e comentários sobre cinema, o livro ainda trás encartada uma história em quadrinhos inédita, produzida por Oliver a partir de frames de filmes pornográficos.

Para além da experimentação do quadrinho um outro recurso utilizado pelo autor chamou minha atenção. São as sequências descritivas de “clipes” que se repetem ao longo do romance narrando sequencias rápidas de imagens descritas em sucessão de pedaços da rotina dos personagens . Talvez esses clipes sejam uma forma de perseguir um dos objetivos artísticos expressos por Mutarelli — o silêncio. A forma utilizada para concretizar essas passagens de ação silenciosa me parece um ponto de contato entre as linguagens literária e do quadrinho (e talvez a cinematográfica, já que a expressão ocupa um lugar de destaque entre as referências do livro).

Na abertura do álbum Sequelas Mutarelli escreveu “Creio que, quando desenho, eu devolva ao nanquim sua função primitiva./Eu sou como o polvo.” Ao borrar a vida e ficção, literatura e quadrinhos, identidade e personagem, Mutarelli prova que consegue fazer o mesmo com as letras da literatura.