João Ubaldo Ribeiro, o vizinho

Moramos no mesmo bairro e na mesma quadra, esbarramo-nos nos botecos do Leblon. É no vizinho que penso agora, que do escritor muito já foi dito e ainda será.

João Ubaldo varava a madrugada escrevendo e saía para sua “happy hour” pessoal na hora em que outros costumam tomam o café da manhã, inclusive eu. Íntimo dos porteiros do quarteirão, parecia ele próprio um porteiro de folga, na bermuda larga, na camisa aberta, nas sandálias de dedo. Num certo dia, quase foi assaltado. Berrou “Severino!” e legiões de paraibanos saíram ferozes dos edifícios, botando os pivetes para correr.

Na quietude de um Leblon que ainda se espreguiçava, chegávamos mais ou menos na mesma hora num dos botecos gêmeos da Ataulfo de Paiva, o Bigorrilho e o Rimont. Distinguiam-se segundo as preferências: o Bigorrilho tinha chope, no Rimont o café era melhor. Lembro bem do dia seguinte à posse de João Ubaldo na Academia. Lá estava ele na esquina, inquieto, esperando a banca abrir para ler o que os jornais diriam. Quando eu estava terminando minha média com pão na chapa, ele parou no balcão ao meu lado, jornal aberto numa página com sua foto e a notícia que procurava.

Enquanto eu o cumprimentava, o dono do estabelecimento, sem se dar conta de estar diante do mais novo imortal do pedaço, perguntou, como sempre: “O que vai ser hoje?” João, que não só falava inglês com perfeição como era capaz de traduzir qualquer idioma para o botequinês, respondeu no ato: “Hoje é uma data especial, eu vou de Odete”. Parei de mastigar e me liguei no desenrolar dos acontecimentos. O que seria uma Odete? O português nem titubeou. Voltou com uma garrafa e serviu ao acadêmico uma dose generosa de uísque “Old Eight”.

Hoje, estou pensando em pedir uma Odete em homenagem a ele.

Foto: Manu Dias/SECOM.


Originally published at noblogdododo.com on August 29, 2014.

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