Não está tudo bem, mas quero ficar

Eu cheguei às sete da manhã de uma festa muito louca e divertida em que beijei muitos homens e depois mulheres e depois homens e mulheres ao mesmo tempo. Foi divertido, mas em algum momento eu fui ao banheiro e me olhei no espelho e não me reconheci.

Eu cheguei em casa às onze da noite porque estou fazendo academia três vezes por semana, nos outros dois faço dança. Lá conheci pessoas novas que dizem que eu tenho um corpo bonito, mas nunca me perguntam que livros já li. Às vezes me encaro toda suada e descabelada no espelho da academia e não me reconheço.

São duas da manhã de uma quarta-feira, mas não consegui dormir então terminei o terceiro livro esse mês. Tenho lido bastante, livros diferentes dos que costumava ler antes. Preciso ocupar minha cabeça com coisas novas.

São sete da manhã de uma quinta-feira e estou atrasada para o trabalho porque passei a noite lendo devido a insônia. Não sei como vou sobreviver ao sono deste dia. Espero sobreviver.

É sexta-feira à noite e estou em casa. Passei reto na academia, dispensei os convites para festa, não tenho livros para ler. Minha mãe sorriu quando entrei, mas não perguntou se estou bem, pois sabe que sempre respondo que sim. Meus amigos não estranharam eu rejeitar os convites, apenas pensaram que eu tinha outro compromisso. Minha cachorrinha tentou entrar no meu quarto, mas eu não deixei.

Eu tentei, cochicho para mim mesma, as lágrimas escorrendo sem controle pelo meu rosto. Abro minha bolsa e pego vários comprimidos de vários remédios diferentes, tem uma garrafa de água em cima da mesa de estudos do outro lado do quarto. Eu olho para ela e depois para os comprimidos, várias vezes seguidas.

São dez horas da noite de uma sexta-feira em que quase desisti. Estou deitada na cama, na minha lixeira vários compridos, na minha mesa de estudos uma garrafinha de água que não tomei.

São nove horas da manhã de um sábado. Não está tudo bem, eu digo para minha terapeuta, mas eu quero ficar.