[Tradução] Vamos nos unir às editoras para “legalizar” o sistema de upload de mangás piratas

Projeto do Ken Akamatsu para combater a pirataria de mangás no Japão.


Antes de começarmos, esta é uma tradução de uma publicação feita no blog pessoal do mangaká Ken Akamatsu (Love Hina, Negima! e UQ Holder!), onde ele propõe e elucida um sistema de monetizar uma plataforma de upload de mangás japoneses, especificamente imitando o modelo que era utilizado no site pirata que foi derrubado em abril de 2018, o Manga-mura.

Explicando de forma breve, pois o termo “Manga-mura” se repetirá diversas vezes ao longo desta publicação, ele era o site com o maior catálogo de mangás em raw (na língua japonesa). Era basicamente a “versão japonesa” de sites de scanlations ou projects.

Manga-mura (漫画村)

Além disso, devo deixar claro que o Akamatsu trata unicamente da pirataria consumida pelo público japonês, que dispensa traduções/edições, bastando as imagens originais. Sendo assim, toda vez que ele disser “sites piratas” ou “sites ilegais”, pense mais em serviços de hospedagem de arquivos (aqueles que você baixa filmes e músicas, como o Mega) de onde o leitor japonês deve fazer download, e não os já conhecidos sites de scanlation que possuem leitores online incorporados.
O Manga-mura foi um sucesso justamente por ser uma exceção (para o leitor japonês): um portal onde era possível ler os mangás sem precisar “baixar”.

Por fim, ressalto que este é um projeto que é uma extensão do portal de leitura online de mangás chamado Manga Toshokan Z (マンガ図書館Z), também do Ken Akamatsu, onde é possível ler obras que já não possuem mais nenhum vínculo com as editoras que as publicaram.
Eu meio que deveria ter feito primeiro a tradução do artigo que explica sobre o Manga Z, mas achei que este daqui seria mais interessante. E também acho que dá pra entender bem qual o intuito do Akamatsu mesmo não conhecendo exatamente o que é esse outro portal dele.

Abaixo, confira a tradução do artigo publicado em 06/08/2018 no blog pessoal de Ken Akamatsu.


06/08/2018

Experimento prático nº 1: Vamos nos unir às editoras para “legalizar” o sistema de upload de mangás piratas

No dia 18/04/2018, pude participar do quadro “Close-up Gendai +” da emissora NHK. O tema do programa foi sobre o Manga-mura (site de pirataria de mangá), e logo que terminou o programa, fiz os seguintes tweets:

Link dos tweets

— Acabei de voltar da NHK… No programa, falei que era possível vencermos a pirataria se tivéssemos os seguintes três pilares: ausência de barreiras entre todas as editoras; mais fácil de usar que os sites piratas; e leitura à vontade por um preço fixo. Contudo, na verdade, eu pretendia apresentar uma solução muito mais criativa para o problema, o que deixei de fazer por ser uma ideia facilmente mal-interpretada.

— Qual seja, um sistema onde editoras e autores, em comum acordo, criam uma plataforma semelhante ao Manga-mura, porém com os devidos lucros convertidos de forma justa a ambos. Quanto a isso, a partir do mês que vem, realizarei um experimento prático em parceria com uma editora de verdade. O meu objetivo é dominar os arquivos pirateados e colocar um ponto final na briga de gato e rato que se perdura por mais de 20 anos.

A seguir, explicarei em detalhes sobre a ideia supracitada.
Acredito eu que seja o mais próximo de um site supremo de mangá digital.


3 fatores identificados no incidente do Manga-mura

Atualmente, não é mais possível acessar o site do Manga-mura. Porém, em vez de nos restringir a somente comemorar que ele foi derrubado, devemos dar um passo adiante.

… Será que você já ouviu a seguinte lenda urbana?
“As crianças novinhas de hoje em dia, cada vez mais, não sabem como ler mangás.”

Ou seja, ela está deixando implícito que, cedo ou tarde, o mangá se extinguirá, já que a nova geração sequer sabe de qual quadrinho deve começar a ler e em que sentido.

Apesar disso, surpreendentemente, o número de acessos do Manga-mura era equivalente ao gigante Instagram e recebia acessos de crianças e adultos. Uma quantidade assustadora de pessoas liam os mangás de lá.

Com isso, nós descobrimos que se for fácil de usar, sem as barreiras entre editoras e ainda por cima de graça, ainda tem muita gente que leria mangás.

Já que tanta gente estava lendo, eu pensei na possibilidade de fazer com que os autores e as editoras herdassem o Manga-mura da forma como ele era. Com o público que o Manga-mura possuía, ele automaticamente se tornaria o maior portal oficial de leitura de mangás do mundo. Nesse caso, pensei também em como faria para incorporar o sistema de upload de terceiros, como acontece nos sites piratas, de forma que o catálogo do portal fosse constantemente atualizado.

  1. A lenda urbana de que “cada vez mais, as crianças não sabem ler mangás”, não passava de uma preocupação boba.
  2. Descobrimos que o mangá ainda tem muita procura, mesmo em comparação com outras mídias de entretenimento.
  3. A maioria dos usuários do Manga-mura (96%) eram japoneses (ou seja, mangás sem tradução não são lidos no exterior).

Agora que ficou evidenciado que existe uma procura (leitores e usuários), será que não seria possível monetizar isso da forma devida?

Que tal tentarmos “legalizar” o upload de terceiros —a base de sustentação de sites piratas — com a ajuda das editoras?


Separando entre “obras que ainda recebem impressões” e “obras que não recebem mais impressões*”

(*Nota: no original, 絶版作品, ou “obras de edição extinta”. São livros que não há mais contrato ou vínculo entre autor e editora, consequentemente, não tendo mais a impressão de novas tiragens. A tradução é adaptada porque não achei o termo equivalente em português, mas se existir, corrigirei.)

Primeiro, devemos separar entre “obras que ainda recebem impressões” e “obras que não recebem mais impressões”. Isso é para não dar problemas às editoras.

★ O que se entende por “obras que recebem impressões”?
Livros que são gerenciados por editoras, recebendo novas tiragens, digitalização (e-book) e ações transmídia.
Como a editora possui o direito exclusivo de publicação impressa e digital da obra, ela pode solicitar a remoção de seus títulos de sites ilegais.

★ O que se entende por “obras que não recebem mais impressões”?
Livros em que o contrato de publicação, feito entre o autor e a editora, foi extinguido.
Mesmo que sejam “postados” em sites piratas, nenhuma editora irá protegê-los. É o autor quem precisaria solicitar a remoção ou entrar na justiça.

Quanto aos títulos da primeira categoria, sinceramente, o ideal seria adotarmos um serviço de leitura à vontade por um preço fixo, mas acredito que ainda estamos distante de implementá-lo. Sendo assim, vamos emular algo similar. (→ artigo: “Fornecer ‘links dos sites oficiais’ para as obras que recebem impressões”*)
(*Nota: Obviamente, o artigo está em japonês, mas resumindo, seria como um aglomerador onde o usuário é redirecionado para as páginas oficiais e realizar a compra do produto.)


Obter e distribuir lucros de “obras que não recebem mais impressões” através do sistema de upload de terceiros

Muito bem, chegamos ao assunto principal.
Vamos tentar fazer o experimento prático nº 1 com as obras da segunda categoria, com a ajuda da nossa parceira, a editora Jitsugyo no Nihon Sha.

Eis o que foi combinado com a tradicional Jitsugyo no Nihon Sha:

  • Lançar digitalmente todas as obras já publicadas pela editora, não só mangás.
  • A maioria das obras lançadas nos últimos 10 anos já possuem formato e-book, mas as mais antigas são difíceis de vender e não há planos para o lançamento digital delas.
  • Para começo de conversa, há muitos títulos em que o contrato está extinto e, portanto, a editora não tem mais direito em relançá-los em formato digital.
  • Mas se for possível publicá-las digitalmente e ainda obter lucros com publicidade (social ads), seria ótimo.

Tendo isso em vista, o primeiro passo é fazer uma lista de todos os livros que a editora deseja ver publicado digitalmente.
Para o nosso experimento, pegamos os quase 9.000 títulos lançados antes do ano 2000. Bastante, não? Há mangás, mas a grande maioria é composta por literatura tradicional, como prosas e livros de poesias.

★ Fazer download da lista de obras utilizadas no experimento (1,7 MB)
(Nota: o link não estava funcionando até o momento da publicação deste artigo.)

Agora, vamos fazer o experimento prático de acordo com o esquema a seguir:

  1. Primeiro de tudo, um civil (terceiro que não é nem o autor e nem a editora) vai fazer o upload de um mangá ou livro da lista acima na seção de experimento prático do site Manga Z. O arquivo a ser fornecido pode ser o que foi baixado de sites ilegais.
  2. Feito o upload, a editora Jitsugyo no Nihon Sha vai entrar em contato com o autor da obra e confirmar o posicionamento dele quanto à publicação digital de seu livro.
  3. Se autorizado, a obra será disponibilizada para o público. Se o autor não autorizar, não será publicada.
  4. Os lucros obtidos através da publicidade serão distribuídos da seguinte forma: 80% para o autor; 10% para a editora; e 10% para quem forneceu o arquivo. (O fornecedor do arquivo pode optar por não receber a sua parte e a editora passará a ficar com 20%.)

[ATENÇÃO (nota do tradutor): como o Akamatsu não deixa claro até este momento, achei válido fazer um adendo. Os tais dos 10% pagos pra quem fizer o upload só vale durante 1 ano, período previsto para o “experimento”. No modelo de negócio finalizado, não há lucros a serem repassados pro terceiro que fizer o upload, e a editora vai passar a ficar com 20%. Ele explica isso só lá no final, na seção de perguntas e respostas.]

Em suma, eis o que esse esquema significa:
mesmo quem não é mangaká ou escritor, pode ajudar as editoras e autores compartilhando suas obras favoritas e ainda ganhar dinheiro.

Adicionalmente, ela possui mais algumas características:

  • Ao contrário de sites ilegais, os títulos não serão publicados sem autorização;
  • Diferentemente de portais de compartilhamento como o YouTube, uma vez que as editoras vão ativamente entrar em contato com os autores para perguntarem-lhes sobre suas intenções, é muito mais honesta;
  • Se no modelo do Manga Z somente os detentores dos direitos podiam obter os lucros da publicidade, neste esquema, terceiros também podem.

As vantagens para a editora, o fornecedor do arquivo e o autor (detentor dos direitos autorais)

★ Vantagens para a editora

  1. Publicar digitalmente suas obras antigas que não tinham planos para tal, sem nenhum custo.
  2. Obter de 10% a 20% dos lucros de publicidade com títulos que sequer tinham mais contrato.
  3. Ter acesso a dados detalhados das obras a qualquer momento, como número de visualizações e rendimento.
  4. Poder solicitar o formato .zip de títulos antigos ou raros que não possuem mais a versão física.

★ Vantagens para o fornecedor do arquivo

  1. Obter 10% do lucro de publicidade apenas por compartilhar obras já existentes (limitado a 1 ano).
  2. A editora irá disponibilizar uma lista de títulos que deseja publicar digitalmente, para dar segurança a quem for fornecer.
  3. Através da plataforma grátis de leitura online (Manga Z), é possível divulgar para mais pessoas as obras das quais gosta.
  4. Pode ser que receba uma “carta de agradecimento” com o autógrafo do autor (eu vou tentar pedir).

★ Vantagens para o autor (detentor dos direitos autorais)

  1. Publicar digitalmente obras antigas e histórias curtas; coisas que, originalmente, seriam muito difíceis de ganharem o formato digital.
  2. Tirando a autorização, não precisa fazer mais nada (ou seja, não tem nenhum trabalho adicional).
  3. Firmando uma parceria oficial com o Manga Z, poderá vender a versão PDF, adaptada para receber a tradução automática para 51 idiomas*.
    (*Nota: uma funcionalidade já disponível nos mangás do mangaz.com e, enquanto a tradução é realmente “automática”, é feita por inteligência artificial.)

Quem se interessou, por favor, visitem a página inicial do Manga Z.

E também deem uma olhada na página que explica o processo de upload para o presente experimento prático.

A propósito, todos os títulos que já foram feito o upload estão disponíveis na parte de baixo da página inicial.


Perguntas e respostas

P.: Se este “experimento nº 1” der certo, há planos para expandir para outras editoras?
R.: Sim. Quando tivermos os números, certamente terão editoras interessadas em saber. Penso em fazer o convite nessa hora.

P.: E no caso de upload de vários arquivos diferentes da mesma obra?
R.: Atualmente, é permitido que mais de uma pessoa faça o upload do mesmo título. Então, depois de autorizada a publicação por parte do autor, é feita uma análise quanto à qualidade das imagens e será escolhido um único material. Os 10% ficarão com a pessoa que o forneceu.

P.: Uma vez feito o upload, vou receber os 10% para sempre?
R.: Não, apenas durante 1 ano, mesmo prazo do presente experimento prático. Mesmo que o experimento continue pelo segundo ano, a editora passará a receber 20%.

P.: Qual o motivo dos 10%?
R.: Nenhum muito objetivo. Bem, como os royalties pagos aos mangakás giram em torno de 10%, foi um valor intuitivo. Porém, nem isso tem uma fundamentação sólida e clara, sendo apenas um costume do mercado. Se esse valor é ou não adequado, pretendo ir descobrindo conforme realizo mais experimentos.

P.: E se forem feitos uploads de títulos que não constam na lista?
R.: Entraremos em contato com o autor para perguntar se a obra pode ser publicada, mesmo que não esteja na lista. Claro que ela não será publicada se não conseguirmos falar com o autor, mas ao menos a capa ficará ali à mostra, então esperemos para que o autor perceba e entre em contato conosco.

P.: O fornecimento de arquivos pode ser feito de forma anônima?
R.: Sim, pode. Só os dados bancários que deverão ser registrados para que o montante referente às publicidades possa ser pago, mas eles sequer constarão nos nossos servidores.

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