O Deus e o demônio

Ana Garnier
Jul 23, 2017 · 2 min read

Olho nos teus olhos e enxergo a insensibilidade do espinho no caule da flor, que rasga a carne de quem toca, atraído pela delicadeza da tua coroa de pétalas. Teu perfume inebria e tua alma se envaidece, na dança do dissabor que é te querer na embriaguez da cegueira da paixão.

O meu corpo flutua em meio a nuvens de sonhos líquidos, envoltos por plástico, em toda a artificialidade do querer desmedido, que causa ansiedade em vão. Enquanto a tua vida é vulgaridade, superficialidade, e o teu querer é mero prazer que aquieta almas inquietas.

Em teu olhar toda a verdade do teu ser, que não te apetece, te entristece e faz desfalecer a tua força, realidade que se sobressai às tuas certezas incertas. E eu em busca de aventuras, navego nos mares revoltos que encontro, desvio das caravelas em punho das criaturas da noite, me canso dos discursos longos que autoafirmam solidão.

Me perco por entre as ruas, entre os pensamentos profanos do mundo a mim revelados e a imagem sagrada de filha que mãe clama em oração. Desonro qualquer tradição, mancho a minha pele e o meu coração, me desfaço e num laço, cresço e redesenho as arestas.

Me encontro em plena vastidão, de mente que pensa, de alma que sente, de vendaval que passa e deixa semente, de broto que brota livre e puro, natural, revejo a minha alma em frestas. Na esperança de tocar as tuas mãos e transmitir o pulsar da vida errante que se conserta, na emoção do calor de vulcão.

Transbordo nos olhos vontades, no peito carrego as feridas que ardem, cicatrizes do profundo viver, latente, como a libido que é pecado e que a gente sente querendo ou não. Te mostro a clareza, te acordo do sono na cama macia, entre os lençóis que amassamos, com um beijo sagrado de dor, do aprendizado na carne que é viva, que não nega o ego e nega o perdão no orgulho, na essência iluminada de ser, o errado e o certo, quem dera saber o mistério da vida que mesclas.

Ana Garnier

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Transformo percepções em arte, escrevo por dias e noites como escape da superficialidade, materializo filosofia, minha alma é ventania, toda parte aqui é terra.