Prece pelo Sagrado Feminino
Meu nome é Ana, sou um pássaro. Calei meu canto, mas no peito meus gritos de dor ensurdecem o desejo de manter-me na sombra do medo. Sou uma mulher, meu ventre é fértil, sou uma luz que ilumina, gero o fruto da vida. Sou filhote de leão, felina, bicho que segue instinto, bossa do ser feminino.
Danço em fé que me habita e faço de mim força que grita, torno meus braços armas, embalada no mantra pulsante da dança, canto meu hino. Entorpeço, enfeitiço, enveneno, escrevo meu próprio enredo. Peço em prece na partida, que a despedida, o adeus à minha família, não sejam por toda a vida.
Seios fartos, sou caça, perseguida. Meu aleito é tesouro raro, meu corpo é banquete caro, de Vênus ao desatino. Perversidade mundana, dominação insana, doença que alastra e contamina, rasga as carnes, suga os sangues, amedronta a menina na espera do ensejo.
Já não anseio o calor do amor, a mão que aquece o peito, que à ferida ameniza, o beijo. Clamo em prece a proteção, sinto em veias a revolta, me expresso e peço um milagre, que minha voz se faça escrita. Que eu não seja benquista, por ninguém admirada, nem se quer desejada, tida como ser divino, acolhe apenas meu corpo, acalma minh’alma, acalenta meu destino.
Esse poema é inspirado em “The Me Bird”, de Pablo Neruda. A essência da minha versão é o vôo do pássaro, a fragilidade e a força, e a mulher é protagonista. Ele fala sobre um desejo de liberdade. Me coloco como personagem em um cenário da minha vida. Em um deserto, como um objeto, como um produto. É algo real, não imaginário. É apenas um sussurro da voz da minha alma, que gritou por liberdade um dia. O silêncio é ensurdecedor, por isso escrevo. Sou um pássaro forte, meu canto é alto, meu vôo é longo.
“I am the furious bird of the calm storm.”
Pablo Neruda
