A mulher que queria ser poeta

Ela é pura poesia: poesia em forma de gente, gente em forma de poesia. Ela é todo um discurso indecifrável, um poema enigmático; e, ainda assim, tão vasta e imensurável é sua essência, que sinto-me quase criminoso por reduzi-la a palavras em um papel encurralado.

Cabelos negros dos mais lustrosos, pele branca como a neve e todo um trejeito teatral, toda uma leveza sobrehumana e uma destreza em seus movimentos perfeitamente balanceados, ela dá a impressão de haver saltado diretamente das páginas de um romance cinqüentista. Parece viver em seu próprio mundo, o qual, às pessoas ao redor – seus amantes – reserva portas fechadas. Não, eu não fui seu único amante; nem de longe gostaria de ser ou haver sido. Há algo a respeito dela que nos faz não querer alterar uma letra sequer em sua personalidade metrificada por medo de estragar a poesia.

Ela, talvez, seja a unificação do belo e do grotesco, a perfeição desfeita em perfeita desarmonia: toda uma sinfonia desconexa, mas íntegra. Ela, talvez, seja uma imagem estática, como aquelas retratadas em quadros de grandiosos pintores, mas cuja essência foge para além da tela ou do monóculo do observador voraz. Ela, talvez, seja apenas indefinível; inalcançável, mesmo quando em meus braços ou nos seus. Ela está sempre muito distante de qualquer alcance, sempre muito perdida em um mundo que não pertence nem a mim, nem a você, caro leitor. É quase como se o ponto de encontro entre nossos mundos subjetivos fosse insuficiente para um espírito tão amplo quanto o seu. Ela não é desse mundo.

Agora, permita-me contar como tudo começou. Foi ela quem veio até mim. Desde a primeira vez em que senti o suave toque de sua pele macia contra a minha, eu soube que ela me traria um par de dores de cabeça. Resisti, mas ela me tentou como a serpente tentou Eva, até que comi do fruto proibido para só então perceber que a proibição me era auto-imposta, baseada em morais nas quais eu não muito acreditava. Foi assim que o primeiro nó se desfez. Foi assim que tudo começou entre nós: ela foi meu pecado, minha perdição, meu ticket de saída do paraíso.

A princípio, ela se sentia vazia demais e eu, cheio demais. Talvez ela buscasse alguma coisa para preencher seu vazio, e eu, alguma válvula de escape para esvaziar meu caos interior. Talvez tenha sido por isso que tudo funcionou tão harmoniosamente: eu tinha muito para oferecer e ela, muito para absorver. Enquanto uníamo-nos, acontecia quase que uma briga de espíritos: era quase como se ela quisesse sentir tudo e eu, nada. Éramos como dois extremos opostos: o fogo contra o gelo; um sobre o outro e o outro sobre o um. Então, mais tarde, naquele mesmo dia, comecei a me questionar: poderiam o fogo e o gelo unir-se pacificamente? Não seria um pouco, quem dirá, perigoso? Será que os dois, em contato, não se extinguiriam? Haveria um ponto de equilíbrio entre tamanhos extremos? E, mais importante, pagaria eu para ver?

Troquei o primeiro par por um segundo ímpar e, com isso, tracei uma linha tênue entre nós. Outra vez, ela me tentou. Outra vez, o íntegro fez-se díspar. Mas, dessa vez, parei: eu disse que não a veria novamente. É claro, não mantive a promessa. Quando finalmente sem amarras, sem culpas, nem desculpas, tornamos a nos encontrar, outra vez, tudo fluiu perfeitamente.

Lembro-me como se fosse ontem daquela noite, pois foi ali que tudo começou a mudar. Ela estava lá, olhando para mim com aquelas órbitas negras, tão profundas e vazias ao mesmo tempo. Na verdade, creio que exatamente por serem tão vazias, eram profundas: davam a impressão de que eu jamais poderia encontrar o fim de seus pensamentos. Talvez eu tenha me reconhecido um pouco naquela infinitude negra e talvez por isso tenha sido um pouco assustador ser encarado por algo tão semelhante: o duelo do espelho contra a natureza. Talvez, não sei.

Houve um tempo em que nosso contato diminuiu e eu, tão saturado de mim mesmo, busquei outras “elas” para esvaziar minha poesia. Aconteceu. Aconteceu tão rápido e fora de controle que tornei-me negativo: perdi pedaços de minha métrica para cada uma dessas pessoas. Tornei-me uma tábula rasa, completamente vazio, completamente cheio de nada. Busquei o dobro ao quadrado de pronomes de terceira pessoa para tentar reverter o processo, para tentar preencher aquela folha branca com alguma palavra, qualquer fosse ela… Mas, tolo de mim, não percebera que o nada também preenchia. Quando finalmente dei-me conta deste doentio ciclo de buscas infindáveis em todos os lugares errados, percebi que estava na hora de parar, mas poderia eu me atrever? Que mais me restava? Era o vazio ou o caos de pronome e, na luta entre ambos, o caos sempre ganhava.

Foi assim, ironicamente, no meio de todo esse caos, que nossos caminhos cruzaram-se novamente. A partir daí, procurei-a para conversar, pois eu sabia que ela tentava extinguir seu vazio da mesma forma que eu estava tentando extinguir o meu. Talvez pudéssemos trocar figurinhas, complementar experiências inacabadas, sei lá. Talvez pudéssemos até fazer poesia. Contudo, ela já não era mais o fogo, nem eu o gelo. Assim como ela, eu me trancara em um mundo só meu, de modo que assemelhávamo-nos. Naquele momento, ambos encontrávamo-nos no mesmo beco sem saída: não haveria mais a briga de espíritos, não haveria mais, em ambos, o conforto que o outro procurava. Haveria apenas uma identificação imensurável que poderia, quiçá, levar à empatia. A empatia, então, criaria laços tênues contra os quais eu não poderia lutar e, talvez, apenas talvez, esses laços se tornassem amálgamas e, apenas talvez, esses amálgamas se eternizassem dentro de mim. Será que não era exatamente isso que eu estava procurando? Será que o inalcançável não estava, finalmente, bem diante de minhas mãos? Tudo o que eu precisaria fazer seria tocá-lo.

Foi assim que corri. Corri na direção oposta, deixando para trás toda uma poesia não escrita. Desenterrei todos os pronomes de terceira pessoa; já eram tantos terceiros, que talvez estivessem virando e revirando quartos. Contudo, eu não mais ligava: que se tornassem quartos, quintos ou sextos! Talvez eu só quisesse realmente permanecer naquele mundo só meu, pois lá, talvez, eu pudesse tornar o vazio belo e o belo, vazio. Lá, talvez, eu pudesse fazer poesia.

E ela, será que fazia?

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