UMA CARTA PROS BROTHERS

Eu queria escrever esse texto para falar diretamente com todos os homens, apesar de eu duvidar que algum vá ler até o final. Sabe por quê? Porque vocês não se importam.

Nessas últimas semanas no Brasil, o assunto de assédio tá em alta. Foram vários acontecimentos que levaram as pessoas a falarem sobre isso. É o Zé Mayer, é o BBB, é o Sílvio Santos, são os playboys que vão ser ginecologistas e acham que fazer piada sobre assédio é engraçado.

Isso dá uma abertura para discussões em redes sociais. No primeiro caso, do Zé Mayer. Muita gente apoiando a menina que pediu apoio, muita gente dizendo que ela está mentindo, que é oportunista. Depois o próprio Zé Mayer admitindo, e colocando a culpa no universo, na sociedade, na idade dele, nos novos tempos.

Vejam bem, mais atrizes deram relatos que já foram abusadas por ele. O que aconteceu na época? Nada. Por que não tinha internet, por que não tinha como expor, por que ninguém ia acreditar. Aí ele pede desculpas em público. Pobre homem, uma acusação de assédio e violência contra a mulher pode destruir uma carreira, não é mesmo? Prova disso é o Casey Affleck, ganhador do Oscar esse ano. O Trump, vejam bem, atual presidente dos EUA. E também todos os artistas que continuam trabalhando e ganhando prêmios, apesar das acusações de estupro/violência contra eles. Que vidas que são destruídas? Não as deles.

Vocês falam como se denunciar um assédio ou violência que aconteceu fosse algo fácil, enquanto vocês não têm noção da quantidade de mulheres que sofrem caladas. Mas precisa sofrer calada? Precisa. É só observar o caso dessa semana do BBB. Um homem, consideravelmente mais velho que a menina, estava sendo abusivo e violento dentro de uma casa cheia de câmeras. Se ele é assim com gente filmando, imaginem sem ninguém olhando. E ainda por cima temos que ouvir as pessoas falando que aquilo não foi violência.

Terminei de assistir essa semana a série dos 13 Porquês. Não vou entrar em méritos de produção, atuação ou qualquer outra crítica relacionada à série, porém tem algo ali que é muito verdade: como uma jovem não consegue denunciar um assédio. Como é difícil contar para alguma pessoa que possa tomar uma medida em relação ao ocorrido. Porque ninguém vai acreditar. Porque é a palavra dela contra a dele. Ou deles. Porque ela é louca. Porque ela quis sim, mas mudou de ideia. Porque era só uma brincadeira.

Eu sofri assédio quando tinha 17 anos. O homem, 10 anos mais velho, me convidou para ver um filme. Eu fui. Eu era virgem, não achei que “ver um filme” poderia significar qualquer coisa menos um filme. Chegando lá, sozinha numa casa estranha, começa a insistência. Não adiantou dizer não. Não adiantou insistir que não. Não adiantou mentir que estava menstruada e “por isso não vai dar”. Eu tive que ouvir um “Vou fazer algo que vai te deixar bem louca” sem saber o que diabos ele queria dizer. Eu tive um medo congelante de o que poderia acontecer se eu reagisse. Eu só desisti. Ele nem tirou minha roupa, só arredou a calcinha para o lado. Escroto né? O resto apaguei da cabeça. Saí de lá e nunca contei isso pra ninguém. Anos depois disso consegui relatar, sob efeito de álcool, o que realmente aconteceu. Anos depois eu consegui admitir para mim mesma que aquilo foi um abuso. Foi um estupro. E anos depois eu consegui concluir por que eu não contei aquilo pra ninguém. E a vergonha? O medo? A exposição? As pessoas te chamando de louca, de mentirosa? Que não foi estupro porque eu não apanhei, porque eu deixei. Vocês têm noção da falta de apoio que a gente tem? Eu não tenho nem coragem de escrever esse texto com meu nome verdadeiro, imagina ir atrás de ajuda 10 anos atrás. “Isso é mentira”, “Ela só quer aparecer”, “Tá inventando isso pra se promover”.

Me respondam isso: quem é que quer se promover em cima de algo desse tipo?

Aí a gente comenta com alguém. A gente espera apoio, mesmo anos depois. E sabe o que a gente ouve? A gente ouve que foi lá porque quis. Que as calças não se abaixaram sozinhas. A gente ouve isso dos nossos namorados, e até das nossas amigas.

Mas vocês se importam, né? Vocês compartilham nas redes sociais o absurdo que é alguém ser tão horrível como o Zé Mayer. Mas vocês tão em grupo do Whatsapp com os amigos que vazam nudes das minas. Vocês dizem que vão dar um pau naquele cara que mexeu com a namorada de vocês, mas vocês continuam andando de boa com aquele amigo que objetifica mulher. Vocês não corrigem quando o amiguinho é machista, e, pasmem, quando um fala da amiga feminista chata, vocês concordam. Vocês chamam a amiguinha de feminazi, porque ela é “muito chata”. Vocês já pararam pra conversar com a feminazi? Vocês já pararam pra conversar com as amigas de vocês e saber o que já aconteceu com elas? Vocês realmente se importam? Se a resposta é sim, o que vocês tão fazendo pra mudar isso?

Vocês dizem que se importam mas quando a gente reclama da quantidade de assédio que a gente sofre TODOS OS DIAS, andando nem duas quadras na rua e já ouvindo putaria, vocês ignoram, porque não é nada grave. Mas quando vocês tão na rua andando de mão com uma namorada, vocês ficam brabos com os caras que ficam olhando para ela, afinal de contas, que falta de respeito né, ela tá acompanhada. Mas ninguém dá bola para o que a gente sofre quando tá sozinha.

E quando a gente generaliza homem, sempre tem um “ah mas não é todo homem”. Um amigo que se ofende. Vocês não têm a capacidade de se colocar no nosso lugar, de tentar entender como é ser vista constantemente como um objeto sexual, e não como uma pessoa. De não ser levada a sério. De não conseguir andar na rua, de não conseguir ir em bares sozinha. Vocês não tem noção do medo constante. E esse medo é causado por HOMENS. E vocês são homens. E esses homens que assediam tão bem perto de vocês, eles tão em todos os lugares. Então antes de se ofender quando a gente fala algo do tipo, por que vocês não tentam entender porque existe tanta mulher com tanto ódio, medo? Por que vocês não assumem uma parcela da culpa?

A gente engole sapo todo dia. Se a gente reclama de algo, é capaz de a gente apanhar — e apanhar de verdade. Meu namorado — e alguns amigos — convive com um cara que tentou me agarrar a força contra uma parede quando eu tinha 16 anos. Tinham amigos meus junto. Precisou de outro amigo pra tirar ele de cima de mim. Depois disso, ele espalhou pra todos os meus amigos que “me pegou”. Anos depois, espalhou um boato sobre mim me chamando de vagabunda. Nunca ninguém xingou ele. Todo mundo continua brother. Eu vejo ele e sou simpática. Afinal de contas, o que eu posso fazer né?

Vocês não se importam com as mulheres, vocês se importam em tirar o corpo fora. Quando vocês testemunham algo machista e ficam quietos, vocês são cúmplices. Vocês tão junto com o cara que passa a mão, com o cara que bate, com o cara que estupra. Então ou vocês começam a se importar de verdade e tomar atitudes, ou só admitam que vocês tão cagando para as mulheres.