O que o trabalho pode aprender com o sexo?

Nossa predisposição para classificar e separar coisas e comportamentos a partir de rótulos que aplicamos segundo nossas concepções éticas ou por pressões sociais, nos faz acreditar que nossos interesses são estanques e inconciliáveis.

Para quase todos nós, algumas coisas são “sérias”, como o trabalho, por exemplo, e devem ser tratadas com a reverência e a liturgia que o termo exige, o que inclui uma vestimenta condizente, modos e linguajar específicos.

De forma geral essa categoria das coisas “sérias” é a que define a imagem que se tem de alguém porque costuma ser a mais divulgada e, possivelmente, a menos condizente com a realidade. Propaganda pura.

Outras atividades, como a diversão, são tratadas de forma mais leve e casual, usualmente com roupas menos formais (ou sem elas). Ao mesmo tempo são consideradas as atividades sociais, mas costumam ser menos relacionadas com o perfil verdadeiro das pessoas e, mais incoerente ainda, costumam ser objeto de desejo dos que passam a maior parte de seus dias envolvidos nas chamadas “coisas sérias”.

Se você tem conta no Facebook ou qualquer outra mídia de relacionamento social, com absoluta certeza terá notado a diferença do humor das postagens das sextas-feiras, que repentinamente se enchem de canecas de cerveja ou gatos sorridentes aguardando o fim de semana.

Não deixa de ser curioso, mas é parte do mesmo processo, que as pessoas atualmente dividam os relacionamentos entre “reais” e “virtuais”, mesmo sabendo que os relacionamentos físicos muitas vezes estão intelectualmente mais distantes e menos verdadeiros do que alguns dos estabelecidos através de plataformas eletrônicas.

Na mesma linha, é quase uma declaração de incompetência corporativa constatar que as empresas bloqueiam acesso a sites de internet que não sejam “relacionados com o trabalho”, o que evidentemente inclui as mídias sociais, esquecendo-se que aqueles a quem denomina “seu maior patrimônio” são pessoas, que se relacionam com outras e que vivem em um mundo em que as interações são exigidas o tempo todo.

Claro que essas pessoas sempre encontram formas de burlar tais bloqueios, seja utilizando um wifi do vizinho ou mesmo o 4G, porque afinal, os ratos precisam existir para justificar a existência de um gato.

Não conheço nenhum ambiente de trabalho que não declare valorizar a criatividade, embora no fundo saibamos que a criatividade é uma das coisas mais desafiadoras numa instituição. Aliás, criatividade vem sendo confundida com inovação, embora sejam coisas muito distintas[1].

Mas nada é mais motivador da criatividade do que o sexo e, ainda assim, nosso ambiente corporativo ou nossas instituições sociais simplesmente desconsideram os avanços que a tecnologia desenvolveu nesse segmento.

Antes que me acusem de estar promovendo o pecado, a lascívia e a luxúria, o que me interessa nesse aspecto é entender os mecanismos que foram desenvolvidos para promover os encontros, físicos ou não, entre pessoas que podem estar fisicamente próximas ou não. Estou, portanto, excluindo deste contexto as discussões e tecnologias mais apimentadas.

Novas formas de encontro para superar a pressão populacional

Na hora de procurar algum par romântico, é comum os mais jovens utilizarem aplicativos como o Tinder ou serviços como ParPerfeito ou outros menos socialmente aceitos como o Ashley Madison. Essencialmente todos estão motivados a encontrar o que lhes é mais caro naquele momento, seja um encontro fortuito, sexo casual ou relacionamento amoroso mais convencional, com direito a “viveram felizes para sempre”.

Independente do fato de gostarmos ou não da tecnologia e da sua intermediação, o fato absolutamente incontestável é que ela amplia as possibilidades de uma forma inconcebível há pouco tempo.

Você pode não saber, mas no início do século XX a população mundial era de 1 bilhão de habitantes. No início do século XXI, essa população havia atingido 6 bilhões, ou seja, em cem anos crescemos 6 vezes mais do que em toda a história da humanidade. O impressionante é que em 2015 já éramos 7 bilhões!

Parece-me perfeitamente compreensível, portanto, que as pessoas se valham de novas ferramentas porque, afinal, o crescimento da população e da mobilidade foram tamanhos, que a probabilidade de esbarrar casualmente em alguém que tenha objetivos comuns — o que também é uma expectativa relativamente recente — vai se tornando mais e mais reduzida.

Mas empresas também precisam encontrar pessoas habilitadas, assim como profissionais buscam postos de trabalho. No entanto nem empresas, nem governos dispõem de ferramentas similares a essas, ou não as utilizam, para encontrar colaboradores motivados a desenvolver as atividades das quais sejam necessários.

Por que transferir responsabilidades, quando deveríamos buscar soluções?

Empresas costumam recorrer aos intermediários, head hunters ou a agências de empregos para encontrar profissionais que requeridos para desempenhar funções nas corporações.

Parece ser um método eficaz de não ter sucesso, afinal, eu não conheço absolutamente nenhum profissional que se sinta à vontade numa entrevista de emprego com alguém que, sabidamente vai decidir o seu futuro e em relação ao qual existe uma abissal assimetria de informação. O resultado evidentemente não pode ser o melhor possível.

No governo a solução criada para o problema é o tal concurso público. Meu posicionamento contrário é notório e baseado em vários anos de serviço prestado no setor, em diversos poderes diferentes.

Simplesmente não consigo conceber que se gaste uma fortuna em recursos públicos, extraídos, portanto da arrecadação tributária, para avaliar a capacidade de alguém de armazenar uma enorme quantidade de informação que não terá qualquer utilidade prática na avaliação do desempenho da atividade para a qual supostamente está sendo promovida a tal competição.

Para resumir, penso que o concurso público é uma forma relativamente eficiente de enganar legalmente os contribuintes pagadores de impostos, de forma a que continuem pagando impostos sem reclamar, porque acreditam que seus empregados foram escolhidos segundo parâmetros técnicos, que mediram sua capacidade de fazer coisas que não guardam qualquer relação com aquilo que efetivamente farão.

Essencialmente, portanto, essa falha se dá em qualquer ambiente corporativo.

Caminhos possíveis para encontrar a solução

Sou um participante relativamente ativo da mais conhecida mídia social profissional do mundo, o LinkedIn, desde o tempo em que era apresentada somente em inglês. Gosto bastante do serviço e já conheci muita gente interessante, fiz e continuo fazendo negócios a partir das possibilidades que a rede de contatos oferece. Sinto-me à vontade, portanto, para fazer algumas observações em relação à estrutura do mesmo.

Propositalmente a apresentação e estrutura do serviço tendem a ser formais, porque afinal, é uma rede voltada a atividades profissionais. O que essa mídia está fazendo, no entanto, é reforçar o estereótipo de que o profissional para ser bom, tem que ser sério, circunspecto.

Todos os meus filhos, inclusive os “adotados’, participam das outras mídias sociais, mas nenhum deles, nem os que trabalham ou estão procurando uma colocação profissional, participam do LinkedIn. A razão é resumida de forma simples: aquilo é muito chato.

  • Por que, afinal, insistimos em pensar que o que diversão e trabalho competente devem ser atividades antagônicas e mutuamente excludentes?
  • Por que uma empresa não pode pensar em contratar um profissional só porque ele é apaixonado pelo que faz e, casualmente, é disso que precisam naquele momento?
  • Se ninguém pretende ter um intermediário que o ajude a encontrar o amor da sua vida, qual seria a justificativa para admitir a intermediação quando a empresa busca um colaborador?

Provavelmente a falta de instrumentos para acessar a pessoa certa e, ao delegar essa função a terceiros, na verdade a empresa transfere ao intermediário a responsabilidade pela assimetria de informação.

Estou convencido de que temos condições de superar essas dificuldades a partir da tecnologia, da criatividade e de uma mudança significativa em nossas expectativas com relação a desempenhos profissionais, afinal, se o namoro existe para que as pessoas se conheçam melhor e nem depois de muito tempo juntos pode-se garantir que a relação seja até que a morte os separe, por que um processo de contratação deveria ser tão complicado?

Novas estruturas de raciocínio exigem ferramentas diferentes e mudanças da ética na construção dos modelos de negócio.

[1] Sugiro, para ilustrar essa afirmação, o vídeo com a Martha Gabriel, engenheira, artista plástica e estudiosa dos mecanismos de interação disponíveis a partir da internet https://www.youtube.com/watch?v=BQG57BQLsOk

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