A alma nua
Já me despi de algumas poucas vaidades que insistiam em ficar. Despir-me da inveja não precisei; desse mal nunca sofri. Os amores antigos apenas pus num canto. Num canto especial porque valeram a pena e, ademais, além de eu não querer, impossível apagá-los. Também não tive que me despir de alguma raiva ou mágoa; sempre foram leves e passageiras como bolas de sabão. Tentei me despir do amor, terra inóspita e cheia de despenhadeiros. Mas foi em vão, a chama insiste em não apagar. Em sendo assim, qualquer vento leve provoca um incêndio. O desafio não é apagá-lo, mas pelo menos não sair chamuscado. Queria a alma nua, leve e flutuante, sem muito pensar e nenhum desespero. Pode parecer insano, desfazer-se do amor. Fechar-se para o mundo. Impossível. Se escapamos do inimigo que mora ao lado, o amor nos pega na próxima esquina: “Perdeu, boy”. O que resta é colocar as mãos para o alto e entregar a senha do coração Me rendo às evidências. Alguns sonhos são irrealizáveis, e um deles é ter a alma nua. O amor sempre lá estará.