A criança e o Arrebol

Criança do interior é como lagartixa: ou está à procura de comida ou inventando diversão. Sempre que eu vejo o Arrebol, lembro-me das minhas férias na casa da minha avó, Dona Jovem, para quem já dediquei duas crônicas. Para quem não leu, digo apenas que Dona Jovem é a mulher da minha vida. Cabocla forte, pequenininha, mas batia um pilão de café maior que ela. É minha referência de mulher. Nas minhas férias, corria para a barra da saia da minha avó, alto sertão pernambucano, beira do Rio São Francisco. A diversão era jogar bola, ir para a estação e tomar banho no rio. Duas coisas que, se não houver, criança inventa: conversa e brincadeira. Já tínhamos um roteiro: bola, estação de trem e rio. Sempre à tarde. Era só o trem apitar, lá íamos nós. Gostava de ver aquele movimento: gente chegando, gente partindo, vendedores de picolé, de milho assado, um vai-e-vem danado e a maria-fumaça impaciente, apitando e soltando uma língua preta que vinha de suas caldeiras. Depois era um silêncio só; um vira-latas aqui, um guarda ali, e voltávamos à nossa vidinha modorrenta. Fim de mundo, terras de Macondo, em “Cem anos de solidão.”

Chegava a hora de descer para o velho Chico, tomar banho, já pensando no que a minha avó teria para o jantar. Às vezes era uma batata assada no fogão à lenha, e, dependendo, se os deuses estivessem de bom humor, um pedaço de bode assado. Se não, o resto de baião-de-dois, feito em panela de barro, que sobrou do meio-dia. Eu era feliz, assim, perto da minha avó. Que também me queria bem, me permita dizer. Foram lá, na beira do Rio São Francisco, meus primeiros Arrebóis; a hora em que o sol se avermelha, despedindo-se deste lado da Terra. Eu não sabia que tinha esse nome, e isso não importava. Ficava ali, na beira do rio, admirando aquela beleza, mas fraco de palavras para elaborar, definir, entender aquela expressão da natureza. Mais tarde encontrei o “Arrebol” nas letras: numa canção de Zé Ramalho e numa citação em Fausto, livro de Goethe. Gosto da palavra “Arrebol…” Bonita, sonora e portentosa, de acordo com a grandeza do seu significado. Gosto, a ponto de debruçar-me sobre ela e achar uma metáfora, já por demais conhecida. Percebi que o sol nasce bonito e fecha sua jornada de forma, também, bonita, majestosa. O que o sol me diz? Reforça o que um dia teremos de aprender: aquilo que começa bem termina bem. O contrário também é verdadeiro. São essas, as minhas pequenas riquezas. Nada de muito futuro, sem muito valor. Mas, do pouco que eu sou, é a elas que eu devo.

Norton Ferreira.