As pessoas gostam de poesia mas não sabem que gostam

No tempo do mimeógrafo ajudei a fundar, na escola, um jornalzinho de poesia. Ajudei com o nome (Poesia Pra Quê?) e com a revisão do material dos colegas. Nunca tive jeito para o ofício de poeta, mas, como o pessoal me queria lá dentro, criei e escrevi na seção História em Quadradinhos, que, como se vê, uma brincadeira com a expressão correta, História em Quadrinhos. Vem daí meus primeiros contatos com Drummond, Fernando Pessoa e outros. Mas quis o destino que eu enveredasse pelas crônicas e contos, e ainda tendo a redação publicitária como profissão. Ou seja: desde pequeno sou escravo e amante das letras. E, é bom que se diga: temente a elas. Respeito e reverencio. A palavra não aceita desaforos. A poesia me ganhou desde cedo, inclusive noutros formatos, também, que não o do livro, que são as letras musicadas. O advento da internet é um capítulo à parte que já faz parte. Digo que não sou poeta porque de fato não sou. Embora reconheça que, nos meus escritos, é comum encontrar frases poéticas e até poemas.

Quando pergunto a uma pessoa se ela gosta de poesia, quase sempre ouço ela dizer que “não” ou “mais ou menos”. Esse “mais ou menos”, eu sei, é para não demonstrar estar totalmente por fora. Mas, quando pergunto se ela gosta de Legião Urbana, Cazuza, O Rappa, Charlie Brown JR. Chico Buarque, Vinícius, Paralamas, Arnaldo Antunes. Nando Reis e outros do mesmo universo, em quase 100% a resposta é “sim”. É quando eu digo “então você gosta de poesia”. Noto um certo alívio e até demonstração de surpresa, uma boa surpresa. Essa é a notícia boa, embora já um pouco antiga: já faz algum tempo que a poesia migrou para a música, e muitos não perceberam. Cantam e gostam das músicas mas não se dão conta de “pinçar”, isolar a frase poética. Não importa. O que importa é que gostem. Se você pensava que não gostava de poesia, eis aí uma boa razão para dizer que sim. Parodiando o refrão do hino da Inglaterra, Deus salve os poetas.

Norton Ferreira.